Comportamento

Igreja católica alemã promete mudar, mas decepciona as vítimas de pedofilia

Igreja católica alemã promete mudar, mas decepciona as vítimas de pedofilia

Cardeal Reinhard Marx - dpa/AFP

A Igreja católica alemã reconheceu, nesta quinta-feira, a urgência de mudar diante dos abusos sexuais cometidos contra milhares de crianças, mas não anunciou um calendário preciso de ação, um resultado considerado insuficiente para as vítimas, que exigemn justiça e indenizações.

“Não seremos perdoados se continuarmos anos e anos apenas falando”, reconheceu o líder dos católicos alemães, o cardeal Reinhard Marx, indicando, porém, que isso também “não vai se fazer em três dias”.

Ao final da conferência episcopal de quatro dias em Lingen (Baixa Saxônia, noroeste), realizada poucas semanas depois de uma cúpula sem precedentes no Vaticano sobre a pedofilia, o cardeal Marx assegurou à imprensa que a Igreja está “no caminho da renovação”.

Ele destacou que os debates foram polêmicos, pois girou em torno dos dogmas, tradições e regras de uma fé em crise. Entre os temas discutidos: o celibato dos padres, o lugar insuficiente para as mulheres, a moral cristã e a sexualidade.

O cardeal falou de um “caminho sinodal”, que os bispos vão percorrer para obter medidas concretas, mas descartou o anúncio de um calendário preciso.

Estes resultado não convenceram Matthias Katsch, que dirige a organização Eckiger Tisch, e que havia denunciado não ter sido convidada para a conferência episcopal.

Em um comunicado, acusou nesta quinta a Igreja de “obstrução sobre as indenizações às vítimas” e exigiu a criação de uma “comissão da verdade e da justiça”, que ficaria encarregada de esclarecer os crimes cometidos e envobertos por religiosos.

Sessenta e seis prelados alemães participaram da conferência, destinada a acabar com o flagelo dos abusos sexuais, indenizar as vítimas e punir os culpados.

O bispo encarregado destas questões, Stephan Ackermann, afirmou na quarta-feira que a Igreja havia solicitado vários estudos e trabalhava em cooperação com as Procuradorias.

“Queremos saber em que situação estamos”, disse ele. Em outros países, estão se multiplicando as condenações de altos dignitários católicos, como na Austrália, com a condenação por abuso sexual do ex-número 3 do Vaticano, o cardeal George Pell, ou a do cardeal francês Philippe Barbarin, culpado de ter protegido um padre predador sexual.

De fato, a Igreja católica, a primeira confissão na Alemanha com 23 milhões de seguidores, está mais do que nunca sob pressão das vítimas e dos fiéis, horrorizados pela magnitude dos abusos.

Por sua vez, as associações de fiéis se mobilizaram. Convocadas pela Comunidade de mulheres católicas na Alemanha, 300 pessoas se manifestaram no início da conferência dos bispos, exigindo que “nenhum criminoso receba cargos” e exigir “ações criminosas”, segundo o portal de infomação katholisch.de.

Uma petição de 30.000 assinaturas também foi enviada aos bispos para exigir uma modernização da Igreja.

– Purificação –

“É hora de realizar grandes reformas. Devemos responder a essa crise de credibilidade”, disse o presidente do Comitê Central dos Católicos Alemães, Thomas Sternberg, à emissora pública ZDF na terça-feira.

O cardeal Marx diz que está ciente da situação e admite que a Igreja vive um “marco histórico” e que uma “purificação” é necessária.

“Só poderemos recuperar a confiança de uma Igreja cujo coração é puro (…), sem duplicidade moral e que aceita ouvir a verdade”, ressaltou o bispo Franz-Josef Bode esta semana.

A Igreja católica alemã já se desculpou em setembro pelas décadas de abusos, após a publicação de um relatório que ela própria solicitou.

De acordo com estudantes universitários independentes, teria havido pelo menos 3.677 vítimas, a maioria meninos com menos de 13 anos de idade, que sofrem abusos sexuais por 1.670 membros do clero, entre 1946 e 2014.

Os autores do relatório enfatizaram que essas conclusões eram incompletas, uma vez que não tiveram acesso direto aos arquivos de 27 dioceses alemãs. Os investigadores só puderam examinar 38.000 dossiês e manuscritos selecionados pela Igreja, e também constataram a destruição de numerosos documentos.