Edição nº2599 18/10 Ver edições anteriores

A hora do ajuste

Miguel era o pai de uma família grande que enfrentava uma dilacerante crise financeira. Nos tempos de bonança, quando a mulher Vilma ganhara um bilhete premiado na loteria, a família gastou por conta. Foram festas de arromba, compra de itens luxuosos, até um sítio e uma cobertura tríplex em frente à praia foram adquiridos. Aqueles anos anteriores de simplicidade seriam finalmente vingados com a ostentação brega, típica dos que precisam esfregar o novo status na cara dos outros.

Mas o que era doce acabou-se. Os últimos centavos desapareceram, restando somente dívida. Muita dívida. Carrões foram vendidos, anéis valiosos tiveram de ser devolvidos e começou a faltar até o básico. Da carne de primeira para a de segunda, depois para o frango, e finalmente para ovos com arroz. Miguel se sentava toda noite no escritório e avaliava o que poderia ser feito. Fazia cálculos, somava, subtraía, e coçava a cabeça, perplexo: como puderam chegar àquele estágio de penúria, fruto de tanta irresponsabilidade?

No fundo, ele sabia o que tinha de ser feito. Fizera parte da farra toda, mas agora parecia disposto, até por instinto de sobrevivência, a realizar reformas inadiáveis. Como Vilma não aceitava de forma alguma qualquer mudança em seu estilo de vida, acabaram se separando, e a ex-mulher virou seu maior pesadelo. No ápice da inconsequência, a principal culpada pela bancarrota familiar instigava os filhos contra as mudanças propostas e impostas pela realidade.

Guilherme chutou o balde e passou a depredar tudo em casa. Seu “protesto” contra o corte nas regalias era queimar seus livros, em nome do seu direito por educação

Chegou ao absurdo de alimentar a rebeldia do filho mais jovem, um “estudante” que cabulava aula para ficar vagabundeando com colegas e repetindo que iriam “salvar o mundo” e lutar por “justiça social”. Ao saber que o pai pretendia cortar em 30% sua mesada e trocar seu carro importado do ano por um mais simples, Guilherme chutou o balde e passou a depredar tudo em casa. Seu “protesto” contra o corte nas regalias era queimar seus livros, em nome do seu direito por educação.

Os demais irmãos não compartilhavam da postura do caçula, e no fundo sabiam que as reformas eram inadiáveis, mas esse os intimidava com a ajuda de seus companheiros da turma barra-pesada. Um deles chegou a atear fogo no carro de uma irmã de Guilherme, a que mais ralava, pois fazia faculdade de medicina bem longe de casa e ainda por cima não recebia mesada do pai. Durante o ato, o marginal alegara que fazia aquilo em nome de todos os pobres trabalhadores.

Sem os cortes nos gastos, a falência seria inevitável. Miguel sabia disso. E olhava perplexo para a irracionalidade do filho caçula, para a falta de caráter de sua ex-mulher, para a sua própria covardia quando poderia ter imposto limites, agido com pulso mais firme, dito “não” ao rebento mimado.

 


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