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Hong Kong: 100 dias de protestos marcados por determinação e criatividade

Hong Kong: 100 dias de protestos marcados por determinação e criatividade

Em 9 de junho de 2019, mais de 1 milhão de pessoas foram às ruas de Hong Kong - AFP/Arquivos

As manifestações pró-democracia completam 100 dias em Hong Kong, período em que a ex-colônia britânica foi praticamente paralisada por sua pior crise política desde seu retorno à China em 1997.

Em 9 de junho, mais de um milhão de pessoas, de acordo com os organizadores, foram às ruas de Hong Kong para protestar contra uma lei do governo local que autorizaria extradições para a China continental.

Os manifestantes temiam que isso levasse a um aumento no controle de Pequim sobre Hong Kong, que goza de ampla autonomia e liberdades desconhecidas na China, graças ao princípio “Um país, dois sistemas”, em vigor até 2047.

A mais importante desde 1997 neste território de 7,3 milhões de habitantes, a manifestação foi marcada por confrontos com a polícia.

Em 12 de junho, uma violência sem precedentes deixou 79 feridos, e um ativista morreu ao cair de um telhado. Três dias depois (15), a chefe do governo local, Carrie Lam, anunciou a suspensão do projeto.

No dia 16, porém, quase dois milhões de manifestantes, de acordo com os organizadores, exigiram sua renúncia, e os bloqueios se multiplicaram.

Em 1º de julho, no 22º aniversário da devolução do território, vários manifestantes causaram destruição no Parlamento local.

Em 12 de agosto, milhares de manifestantes invadiram o aeroporto de Hong Kong, que foi forçado a cancelar seus voos. Os militares chineses se concentraram na cidade de Shenzhen, às portas de Hong Kong.

Em meio a dispersões com jatos d’água e a perseguições das principais figuras do movimento, em 4 de setembro, Lam anunciou a retirada definitiva do projeto de lei que deflagrou os protestos.

Os manifestantes consideraram a ação insuficiente, reivindicando também anistia para mais de mil presos e a introdução do sufrágio universal.

– Criatividade à toda prova –

Durante todo esse tempo, os manifestantes utilizaram uma série de engenhosos métodos para impulsionar seu movimento e, além das barricadas, usaram música e espetáculos luminosos para promover os objetivos de seu movimento.

A música marcou presença nos protestos dos últimos três meses, e os temas mais bem-sucedidos foram a cativante canção cristã “Sing Hallelujah to the Lord” e “Do You Hear the People Sing?”, do musical “Les Misérables”.

Os manifestantes também usaram canetas com ponteiro a laser para assinalar a posição dos agentes da polícia e evitar que identificassem os manifestantes.

Depois que um líder estudantil foi detido por portar dez canetas laser, os manifestantes passaram a realizar mais constantemente os “espetáculos de luzes”.

Na sequência, foi a vez da primeira corrente humana, realizada no final de agosto. O ato coincidiu com o 30º aniversário da “Baltic Way”, na qual mais de um milhão de pessoas uniram suas mãos em uma enorme manifestação contra a União Soviética.

Também houve várias campanhas de microfinanciamento coletivo pela Internet (“crowdfunding”), de grande sucesso. Duas delas eram destinadas a publicar anúncios em grandes jornais. Foram arrecadados cerca de 2,7 milhões de dólares.

Os manifestantes também espalharam os “muros John Lennon”, cobertos de pôsteres e slogans por toda cidade, uma versão local do muro cheio de grafites que surgiu em Praga após o assassinato do líder dos Beatles em 1980.

Doces tradicionais, como os pastéis da Lua, ganharam tom de protesto, e uma padaria vendeu milhares deles com slogans pró-democráticos escritos em sua massa.

Alguns grupos exibiram bandeiras do Reino Unido da era colonial, mas a mais popular foi a “orquídea murcha”, uma modificação da bandeira oficial de Hong Kong.

Também foi muito usado o slogan “Be Water” (seja água), um princípio de imprevisibilidade, à qual a lenda do kung fu Bruce Lee aderiu para incentivar os manifestantes se moverem constantemente para evitar prisões em massa.