Edição nº2568 15/03 Ver edições anteriores

Homo carnavalis

Ademar é gerente da agência do Banco do Brasil de Palmital, no interior de São Paulo.

Se alguém tem uma vida pacata, esse alguém é o Ademar.

Casado com a Glória, do lar, têm três filhos: os gêmeos e o outro, que veio temporão.

Todos os dias Ademar acorda às 6 horas, coloca o terno e vai até a padaria comprar leite, pão e 150 gramas de queijo prato para o café da manhã da família.

Ademar é desses que levanta a tampa da privada.

Lembra do aniversário de casamento.

Ele abre a porta para as mulheres – coisa que as feministas de Palmital odeiam.

Ademar é respeitador. Tradicional, não bebe nem fuma.

– No máximo uma cervejinha vendo o futebol, que ninguém é de ferro — confessa para o médico no check-up semestral.
Glória e Ademar são casados há 12 anos.

E, como é funcionário de carreira, a mulher já está acostumada que, durante o carnaval, o banco sempre faz sua convenção dos funcionários.

Glória tem orgulho do marido que já conheceu o País inteiro por causa do evento.

– Só para Salvador já foi umas seis vezes. Pro Rio, umas quatro.

Esse ano, a convenção acontece na capital de São Paulo mesmo.

Tempos bicudos.

Então, sexta-feira ele se despede de Glória, beija as crianças e vai para a rodoviária.

É no ônibus que acontece a mutação genética de Ademar, muito comum no Brasil durante o carnaval.

É uma semana que transforma gente comum, educada, civilizada, no Homo carnavalis.

Ou Mulher carnavalis, para não esquecer da descoberta arqueológica da ex-presidente.

Quando completa sua metamorfose no Homo carnavalis, Ademar fica irreconhecível.

Ele entra no banheiro apertado do expresso Andorinha e quem sai de lá é o Olegário, a antítese do Ademar.

Roupas coloridas.

Falastrão.

Já no ônibus começa a assediar a mulherada.

Uma vez, indo para Salvador, urinou no corredor.

– Vamos começar a festa, meu povo! — fazendo helicóptero com o dito cujo de fora.

Fica sempre num hotel econômico para poder gastar no que realmente importa: bebida.

Muita bebida.

E agora, com a venda de maconha liberada nos bloquinhos, também anda dando uns pegas.

Bloquinho de rua, aliás, é coisa que faria Ademar entrar em coma.

Mas é o habitat natural do Olegário.

Do sábado à terça-feira, Olegário bebe, fuma, cheira e ataca a mulherada como se não houvesse amanhã.

A farra acaba na quarta-feira de cinzas, pela manhã, no banheiro do ônibus.

Ademar sai de lá vestindo sua camisa polo azul-marinho e sapatos de amarrar. E, acredite se quiser, sem lembrar de nada.

Tanto que quando chega em casa, conta para a mulher os mínimos detalhes da convenção.

Chega a reproduzir palestras inteiras.

Para Ademar, Olegário não existe e vice-versa. É tudo tão sem explicação, que a própria Glória é quem desfaz a mala do marido sem nunca achar um confete sequer.

Até esse ano.

Ademar chegou e jogou a mala na cama.

Quando Glória abriu, quatro celulares caíram de dentro. Ademar olhou sem saber o que era aquilo.

– Ah, isso é que não, Ademar! — gritou a mulher — Agora o Olegário deu para roubar celular no bloquinho!?

Glória sempre tinha feito vista grossa para a única excentricidade do marido.

Mas aquilo estava indo longe demais.

O bancário Ademar é um homem tradicional, respeitador, mas uma vez por ano vira Olegário, sua antítese. Sua esposa nada sabia, até que…

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Mentor Neto

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