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Homens-bomba, franco-atiradores e foguetes nas últimas horas do EI na Síria

Homens-bomba, franco-atiradores e foguetes nas últimas horas do EI na Síria

Um combatente das FDS observa os destroços na localidade síria de Baghuz, o último reduto do EI, em 24 de março de 2019 - AFP

Em suas horas finais, os extremistas do grupo Estado Islâmico (EI) defenderam com homens-bomba, franco-atiradores e foguetes seu último bastião na Síria, formado por apenas alguns terrenos baldios, mas acabaram caindo.

Após a batalha final, os combatentes das Forças Democráticas Sírias (FDS), a aliança curdo-árabe que lutou no terreno, relataram para a AFP as últimas horas da presença nesta parte da Síria do grupo jihadista mais temido do mundo.

Às margens do Eufrates, no povoado agrícola de Baghuz, do qual até então quase ninguém havia ouvido falar, os extremistas opuseram resistência pela última vez.

Em 2014, no auge, o EI controlava um território grande como a Grã-Bretanha, onde viviam mais de sete milhões de pessoas. Também reivindicava a autoria de atentados como os que mataram até 320 pessoas em julho de 2016 em Bagdá, ou 130 pessoas, em novembro de 2015 em Paris.

De derrota em derrota, seu “califado” foi perdendo terreno até ficar reduzido a um minúsculo setor onde os extremistas travaram a batalha, escondendo-se em túneis, ou covas nos flancos das colinas, explicam as FDS.

“Chegamos à noite. Estávamos lá na barricada. Consolidamos nossas posições na linha. Atacaram pela manhã. Tinham franco-atiradores que atiravam em nós”, lembra o combatente Hamid Abdel Aal.

Do alto de um prédio abandonado, onde foi hasteada uma grande bandeira amarela das FDS, o combatente aponta para um pequeno monte de terra, a poucos metros de distância antes de chegar ao rio.

Durante quatro horas, os jihadistas lutaram, mas terminaram encurralados.

“Oito deles se detonaram, os demais se renderam”, lembra este homem de cerca de 30 anos.

Hamid Abdel Aal nasceu na cidade de Chaddade, na província de Hasake (nordeste), e entrou nas FDS em 2016.

“Atacavam de maneira esporádica. Havia homens-bomba que saíam dos túneis”, confirma Omar, de 31 anos, que luta desde outubro na frente da província de Deir Ezzor.

“A maioria era estrangeira, do Cazaquistão, da França, da Arábia Saudita e do Iraque”, detalha este pai de quatro filhos.

– Como gato e rato –

No domingo passado, uma equipe da AFP viu dezenas de pessoas se entregarem no que fora o acampamento jihadista, principalmente homens, esperando para subir em um caminhão.

“Estavam escondidos em grutas, ou em túneis”, relata Omar, também na faixa dos 30.

Assim como muitos combatentes das FDS, este veterano das batalhas de Raqa, Manbij (norte) e Deir Ezzor reconhece que os extremistas de Baghuz estavam em seu pior momento.

“Antes os combatentes eram ferozes. Estavam em seu momento de maior força, usavam carros-bomba, artilharia pesada, drones, escondiam explosivos nas casas”, lembra.

O último campo de batalha do EI está, agora, cheio de montes de terra, carros queimados, janelas quebradas. Dois corpos estão no chão junto com cinturões de explosivos e um livro com caracteres cirílicos.

É tudo que resta do “califado”, o autointitulado Estado jihadista que chegou a ter sua própria moeda e a cobrar impostos.

“Até o fim tinham lança-foguetes, atiravam de longe contra os nossos carros”, conta o combatente Hisham Harun, que carrega um walkie-talkie e uma pistola.

“Tinham força, mas não era a força do EI de antes”, diz Harun. “No fim, era como Tom e Jerry, um rato encurralado num canto. Não tinha como escapar do gato”, completou.