Como o desfile em homenagem a Lula afeta a relação entre governo e evangélicos

Acadêmicos de Niterói representou crentes de forma pejorativa e deu margem a desgaste político, que é negado pelo PT

Evangélicos dedicam oração a Lula após sanção de lei que cria Dia Nacional da Música Gospel
Evangélicos dedicam oração a Lula após sanção de lei que cria Dia Nacional da Música Gospel Foto: Ricardo Stuckert/PR

O desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), além de provocar uma série de ações na Justiça Eleitoral pela possível configuração de propaganda eleitoral antecipada, ainda ressoa negativamente na relação entre os petistas e o segmento evangélico.

Com Lula como tema do samba-enredo e espectador na Marquês de Sapucaí, as críticas de pastores e parlamentares ligados à religião não se limitam à escola de samba e podem atrapalhar a estratégia do Palácio de Planalto de reduzir a rejeição do eleitorado crente a tempo das eleições.

Evangélicos como opositores

No domingo, 15, a Acadêmicos de Niterói apresentou homenagens a Lula, críticas a adversários e uma ala, chamada “Neoconservadores em conserva”, com pessoas dentro de latas representando grupos evangélicos, integrantes do agronegócio e defensores dos “valores tradicionais da família” de forma pejorativa e na condição de opositores, como mostra o roteiro enviado pela agremiação à Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro).

Roteiro da ala 'Neoconservadores em conserva', apresentada pela escola Acadêmicos de Niterói no desfile que homenageou Lula

Roteiro da ala ‘Neoconservadores em conserva’, apresentada pela escola Acadêmicos de Niterói na Sapucaí

A reação entre pastores refratários ao petismo foi imediata. Presidente da Igreja Batista da Lagoinha, André Valadão publicou no X (antigo Twitter) uma imagem de sua própria família dentro de uma lata e defendeu que, no conservadorismo, há “limites que preservam, princípios que não apodrecem com o tempo“.

Publicadas por opositores e com adesão nas redes, as montagens de famílias em latas se consolidaram como uma frente de crítica a Lula. Ministros e a primeira-dama, Rosângela da Silva, não participaram do desfile, mas a inclusão de bandeiras do governo no enredo, a ida do mandatário à Sapucaí e o repasse de R$ 1 milhão em recursos federais da Embratur (Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo) às escolas do Rio de Janeiro tornaram as duas coisas indissociáveis para a esfera política — e alimentaram a tese de propaganda.

Em nota, o PT negou irregularidades eleitorais e afirmou não ter relação com as escolhas do desfile, mas o ator Paulo Vieira, que representou o presidente na Sapucaí, disse ter sido convidado pelo presidente e pela primeira-dama em entrevista ao site Metrópoles.

O pastor Silas Malafaia, presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo e aliado antigo de Jair Bolsonaro (PL), representado de forma crítica no desfile, disse que o Carnaval “provou, mais uma vez, de que lado Lula está”. “A escola [Acadêmicos de Niterói] tentou denegrir evangélicos. [O presidente combate] costumes, família e pátria, fundamentos da fé de um verdadeiro evangélico. Quando você apoia um cara desse, está negando sua fé por paixão política”, afirmou.

Aliado de Malafaia e líder do PL na Câmara, o deputado federal Sóstenes Cavalcante (RJ) disse à IstoÉ que a reação ao desfile nas redes sociais “mostra que o distanciamento entre Lula e os evangélicos aumenta a cada ataque a nossa fé“, mas preferiu não comentar especificamente sobre o desfile.

A Frente Parlamentar Evangélica, que reúne 210 deputados, falou em “escárnio contra a fé cristã”, “deboche aberto aos valores conservadores que sustentam nossa sociedade” e prometeu acionar a PGR (Procuradoria-Geral da República) pedindo a punição dos responsáveis. A Frente Parlamentar Católica disse que o desfile ultrapassou limites legais e também pregou responsabilização.

O deputado Otoni de Paula (MDB-RJ) na Câmara

O deputado Otoni de Paula (MDB-RJ) na Câmara

Mesmo políticos mais próximos do governo, como Otoni de Paula (MDB-RJ), engrossaram o coro. “O desfile atacou o conservadorismo e a família, que para a maior parte dos brasileiros, é sagrada“, disse à IstoÉ. “É natural e até cauteloso imaginar que o governo teve acesso ao que a escola de samba iria apresentar, mas me parece que foram movidos pela arrogância e ignoraram um estrago muito maior do que apenas com os evangélicos”.

“O presidente é avô, pai, respeita a família e as várias manifestações religiosas. No seu íntimo, ele é conservador e nunca foi contrário às igrejas evangélicas, ao contrário do que sempre disseram“, seguiu o deputado federal e pastor da Assembleia de Deus Madureira. “Se Lula assumisse essas posições, quem da esquerda deixaria de votar nele? Mas eles [governo] não conseguem falar o que não seja da bolha. Estão escravizados pela bolha, igual Bolsonaro“, concluiu ele, que já apoiou o ex-presidente, mas rompeu com o bolsonarismo e se tornou uma das raras pontes entre o petista e os evangélicos.

O ‘tiro no pé’

O diagnóstico de que endossar e defender o teor do desfile foi uma perda política para o governo é reforçado pelo fato de que a rejeição deste segmento é tida como um dos maiores desafios para a pretensão de reeleição do petista.

Os crentes são 26,9% da população brasileira e, conforme pesquisa Quaest divulgada neste mês, 61% de seu eleitorado rejeita o atual governo. Ao longo do mandato, Lula tentou fazer acenos, como a sanção do projeto que instituiu o Dia Nacional da Música Gospel e a escolha do advogado-geral da União, Jorge Messias, diácono da Igreja Batista Cristã de Brasília, para o STF (Supremo Tribunal Federal), mas não conseguiu se aproximar do grupo.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, (e) conversa com Jorge Messias (d), indicado ao STF

Lula ao lado de Jorge Messias, um dos poucos evangélicos que integram o alto escalão do governo

O caminho, agora, parece ainda mais obstruído. “Não sei se tem volta. Me parece que a arrogância é tão grande que eles não parecem conseguem fazer sequer um mea culpa; vir a público dizer que, mesmo sem ter responsabilidade com o samba-enredo, o governo se desculpa por esse ataque desnecessário às famílias brasileiras”, afirmou Otoni de Paula.

Publicamente, os petistas não admitem o desgaste político. Presidente do partido, Edinho Silva minimizou as críticas e afirmou que Lula “sempre teve uma relação de muito respeito com a comunidade evangélica”. “Os líderes das igrejas sempre tiveram no presidente um aliado na construção de políticas públicas para o fortalecimento das famílias brasileiras”.

Um dos 14 membros do partido na Frente Parlamentar Evangélica, o deputado Nilto Tatto (SP) afirmou à IstoÉ que a reação crítica não é das famílias evangélicas, mas de “lideranças que tentam tirar proveito” e avaliou que nem o governo nem o PT devem responder pelo que ocorreu na Sapucaí. “A escola de samba não é do PT ou do governo, e não houve qualquer intervenção para definir o enredo“.

Internamente, porém, o cenário é outro. O jornal O Globo revelou que pesquisas circularam no Planalto mostrando rejeição ao desfile e que o próprio governo encara a ala dos “Neoconservadores em conserva” como um desastre para o trabalho de aproximação entre o chefe do Executivo e os crentes.

Para Vinícius do Valle, autor do livro “Entre a religião e o lulismo” (Editora Recriar, 2019) e ex-diretor do Observatório Evangélico, é cedo para afirmar que o episódio ampliará a antipatia a Lula no segmento, mas para uma “tentativa de atacar a narrativa da oposição e se aproximar dos evangélicos, foi um tiro no pé“.

“Foi um aceno a convertidos, a uma base que vê com maus olhos segmentos sociais refratários ao PT. Para os evangélicos desconfiados, que não pensam como essa fração da sociedade e são aqueles que o presidente precisa atrair [para a eleição], o efeito é desastroso“, disse à IstoÉ.