Edição nº2606 06/12 Ver edições anteriores

Histórias sem fim

Diante da dor e da tragédia, a esperança alimenta a resiliência. Assim, é fácil compreender a frase de Anielle Franco quando a polícia civil e o Ministério Público do Rio de Janeiro lhe disseram já ter o biotipo do assassino de sua irmã — a vereadora Marielle Fanco, executada com quatro tiros na noite de 14 de março, juntamente com o motorista Anderson Gomes. Disse Anielle ao saber dessa pista: “é um suspiro de esperança”. Há, no entanto, outro suspiro nesse episódio, suspiro de quem está emocionalmente exterior à situação. É, nesso caso, o suspiro que traduz justamente o contrário — ou seja, bate a desesperança de que ocorra a captura dos criminosos.

O desgaste do tempo desacredita a crença: caminhamos oito meses desde o assassinato de Marielle e o que se tem, até agora, é o biotipo de quem atirou contra ela e Anderson. Segundo as autoridades, foram descobertos também por quais lugares o carro dos assassinos passou após a execução. Sinto muito, é quase nada o que a polícia entregou até esse momento. Mais uma vez as autoridades afirmaram que não revelam outros detalhes para que o trabalho de investigação não seja prejudicado. Quando quem investiga diz isso, geralmente é porque não tem nas mãos mais que par de sete. Achar que no silêncio as investigações não são atrapalhadas, é o mesmo que imaginar que desde a noite de 14 de março os executores e os mandantes estão imóveis, sem sair do Rio de Janeiro, e que só fugiriam se as suspeitas se tornassem públicas. Quem matou Marielle é profissional. Matador desse tipo faz o seu repugnante serviço e foge no minuto seguinte. É claro que no Rio de Janeiro os pistoleiros não permaneceram.

Repete-se, aqui, o que já foi dito em outras ocasiões: Forças Armadas ou Polícia Federal deveriam, já no início, ter capitaneado as investigações. A PF entra agora para investigar se algo está impedindo as averiguações. Teme-se que tudo dê em nada, e é bom a PF estar no caso. Eis dois exemplos ocorridos no Rio de Janeiro. Em junho de 1961, desapareceu uma senhora chamada Dana de Teffé. A última pessoa a estar com ela fora o advogado Leopoldo Heitor de Andrade Mendes. Declarou inocência, ficou preso por nove anos, foi absolvido pelo Tribunal do Júri. A polícia nunca encontrou o corpo de Dana e nem prendeu o verdadeiro assassino. Em agosto de 1973, o garoto Carlinhos, dez anos de idade, foi sequestrado. O caso estourou na mídia internacional. Policiais, detetives particulares, ufólogos, sensitivos, todos apresentavam uma solução a cada vinte e quatro horas. Um policial vestiu-se de mulher dizendo que dessa forma desvendaria o crime, posou com trajes femininos para fotos, acabou punido por seus superiores. Resumo: até hoje não se sabe qual o destino de Carlinhos e ninguém foi condenado pelo sequestro. Que seja outro o desfecho do caso Marielle.

O desgaste do tempo desacredita a crença: oito meses desde o assassinato de Marielle e, até agora, só impunidade


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