Comportamento

História escabrosa

O escritor americano Philip Roth escolheu a dedo quem seria o responsável por contara sua trajetória. Quando o livro foi lançado, surgiram, diversas acusações de estupro contra o autor, Blake Bailey. Afinal, é possível separar a obra de seu criador?

Crédito: Divulgação

Foram anos de pesquisa e acesso a milhares de cartas e documentos pessoais. Philip Roth, um dos maiores escritores do século 20, permitiu, antes de sua morte, em 2008, que sua vida fosse explorada por uma única pessoa: Blake Bailey. Com diversas biografias literárias no currículo, entre elas as dos escritores Richard Yates, John Cheever e Charles Jackson, Bayley parecia ser o nome perfeito para a tarefa. Uma série de acusações, no entanto, colocaram tudo por água abaixo. Após ser acusado de assédio e estupro, Bayley foi parar no banco dos réus do #metoo, movimento popularizado pela indústria cinematográfica em 2018. O que tornou o caso ainda mais complexo é que o próprio biografado, Philip Roth, tinha relações conturbadas com diversas mulheres, tanto em seus livros quanto na vida real.

“Philip Roth: The Biography” chegou ao mercado em abril e foi direto para a lista dos mais vendidos do jornal americano “The New York Times”. No Brasil, a Companhia das Letras já havia adquirido os direitos autorais para sua publicação. Tudo parecia encaminhado até que as denúncias contra Bayley começaram a aparecer em efeito cascata. As acusações envolvem assédio a alunas da oitava série, envolvendo o período em que Bailey era professor de Inglês. Na sequência, vieram dois testemunhos de estupro, corroborados por testemunhas e e-mails – um deles do próprio autor, pedindo para que o caso fosse esquecido.

ASSÉDIO Bailey e Roth: biografia vetada e anos de pesquisa jogados no lixo (Crédito:Divulgação)

Livro cancelado

Bayley ainda não foi condenado pela Justiça, mas estranhou-se a postura radical da editora americana, responsável por um dos mais aguardados lançamentos literários de 2021 e no qual já havia investido muito dinheiro. A “W.W Norton” decidiu encerrar a promoção do livro e cancelou a reimpressão de dez mil cópias, além da retirada das 50 mil que já estavam à venda. E foi além: rompeu com o escritor e tirou a obra de seu catálogo, bem como outro livro escrito pelo autor em 2014. A Companhia das Letras falou à ISTOÉ que optou por suspender a tradução do trabalho, sem previsão de retomada. O livro, em língua inglesa, segue disponível para a venda em formato digital, ou seja, não foi retirado das prateleiras e é facilmente encontrado em seu idioma original em diversas lojas virtuais. No entanto, mesmo com a leitura da obra, a história de Roth perdeu o protagonismo e pode até ganhar um contorno jamais pretendido pelo grande escritor – a história do biógrafo é mais escabrosa que a do biografado.