Uma pesquisa recente conduzida na China revela que mais da metade dos homens com 50 anos ou mais não possuem conhecimento adequado sobre a hiperplasia prostática benigna. Publicado em julho no periódico Neurourology Urodynamics, o estudo analisou 444 questionários, incluindo 191 participantes entre 60 e 69 anos, e acende um alerta sobre a saúde masculina. A condição, comum no envelhecimento, é caracterizada pelo crescimento não maligno da próstata, mas seu desconhecimento pode atrasar diagnósticos e tratamentos, com graves consequências.
A hiperplasia prostática benigna é uma condição prevalente em homens mais velhos, porém o nível de conhecimento sobre ela é consideravelmente limitado.
- Um estudo recente realizado na China indica que mais da metade dos homens com 50 anos ou mais desconhecem aspectos cruciais da hiperplasia prostática benigna.
- O atraso no diagnóstico e tratamento da hiperplasia prostática benigna pode acarretar complicações sérias, afetando a bexiga e os rins, e destaca a urgência do rastreamento.
A hiperplasia prostática benigna se caracteriza pelo crescimento não maligno da próstata e se torna progressivamente mais frequente com o avanço da idade. Entre os sinais mais comuns estão dificuldade para iniciar o jato de urina, jato fraco ou intermitente, sensação de esvaziamento incompleto da bexiga, aumento da frequência urinária durante o dia, necessidade de acordar durante a noite para urinar e urgência miccional. Também pode ocorrer incontinência urinária, caracterizada pelo escape involuntário de urina.
Reconhecer esses sinais é fundamental para que o indivíduo não atribua automaticamente as alterações ao envelhecimento. A orientação adequada também pode auxiliar na redução do tabu em torno dos sintomas urinários, que ainda leva muitos a adiarem a procura por um especialista. “A hiperplasia prostática benigna acomete cerca de metade dos homens acima de 50 anos e quase 90% daqueles com mais de 80 anos”, destaca o urologista Marcelo Wroclawski, coordenador da área de Hiperplasia Prostática Benigna do departamento de Disfunção Miccional da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).
O atraso na busca por atendimento médico pode ser ainda mais relevante entre pessoas que enfrentam dificuldades de acesso aos serviços de saúde. “Esse estudo confirma o que vemos na prática médica no dia a dia: por ignorância, vergonha ou mesmo por dificuldades de atendimento, muitos procuram ajuda quando o caso já está mais avançado e pode apresentar consequências mais sérias”, afirma o urologista Gustavo Caserta Lemos, do Einstein Hospital Israelita.
Como o crescimento benigno da próstata afeta o organismo?
O problema ocorre quando a próstata cresce na região próxima à uretra, canal responsável por conduzir a urina para fora do organismo. Com o aumento da glândula, a passagem pode ficar comprimida, dificultando o fluxo urinário e obrigando a bexiga a trabalhar com mais força para eliminar a urina.
Esse esforço contínuo provoca alterações na musculatura da bexiga. Com a evolução do quadro, as fibras elásticas do órgão podem ser substituídas por fibras colágenas, tornando sua parede mais rígida e menos funcional. Também podem surgir divertículos, pequenas bolsas formadas no tecido, que favorecem o aparecimento de cálculos vesicais.
Em casos mais avançados, a bexiga deixa de se esvaziar adequadamente e acumula uma quantidade cada vez maior de urina, apresentando resíduo urinário após a micção. A retenção pode chegar a um quadro de obstrução completa. Como os rins continuam produzindo urina, mas encontram dificuldade para eliminá-la, a pressão pode provocar dilatação das estruturas renais e comprometer sua função.
Hiperplasia e câncer: entenda as diferenças
O crescimento benigno da próstata não deve ser confundido com câncer de próstata. Na hiperplasia, o aumento das células ocorre principalmente na região central da glândula e provoca sintomas urinários. Já o câncer de próstata costuma surgir na região periférica da glândula e, nas fases iniciais, frequentemente não provoca sintomas. “Por esse motivo, é fundamental o rastreamento periódico, mesmo sem queixas, que possibilita diagnóstico precoce, maior chance de cura e melhores resultados funcionais, como preservação da continência urinária e da ereção”, pontua Marcelo Wroclawski.
É recomendado que todos os homens a partir de 45 anos, mesmo sem sintomas, façam avaliação urológica de rotina. “O crescimento benigno da próstata começa por volta dos 40 anos, sendo que, em alguns pacientes, o ritmo de crescimento é bastante lento e talvez eles nunca precisem ser tratados. Em outros, o crescimento é mediano e essas pessoas só vão ter problemas a partir da sexta década de vida, e uma minoria tem um crescimento bastante rápido e pode ter problemas a partir da quinta década, por isso é importante o acompanhamento”, frisa Gustavo Caserta Lemos.
Mesmo quando os sintomas não são graves, eles podem interferir significativamente na rotina. A necessidade frequente de urinar ou de interromper atividades para procurar um banheiro pode levar alguns homens a modificarem seus hábitos em vez de procurar tratamento. “Muitos acabam reduzindo a ingestão de líquidos ou evitam sair de casa, por exemplo. Dessa forma, há impacto relevante na qualidade de vida, com prejuízo do sono, limitações sociais e efeitos na esfera sexual”, destaca o médico da SBU.
Novas abordagens para o tratamento da condição
O tratamento da hiperplasia prostática benigna é individualizado e as opções incluem medicamentos, procedimentos minimamente invasivos e diferentes técnicas cirúrgicas, escolhidos de acordo com as características e necessidades de cada paciente. “Dentre as medicações, destaca-se a silodosina, que foi recém-lançada no Brasil e tem como objetivo relaxar a musculatura da próstata e do colo vesical. Com isso, a substância melhora o fluxo de urina, tornando a micção mais eficiente”, conta Marcelo Wroclawski.
Entre as alternativas minimamente invasivas estão procedimentos realizados pelo canal da urina, como os que utilizam vapor d”água, implantes prostáticos e stents temporários. Em alguns casos, essas técnicas podem ser realizadas em regime ambulatorial, sem necessidade de internação, e apresentam como uma das possíveis vantagens a preservação da ejaculação.
Quando a próstata está muito grande e a cirurgia é indicada, ela pode ser aberta ou por robótica. Pelas duas técnicas, o cirurgião entra pelo abdômen, abre a bexiga e retira a parte crescida da próstata em bloco. A técnica robótica é muito menos invasiva do que a técnica aberta, mas, mesmo assim, é mais invasiva do que os procedimentos feitos via uretra.
“Temos à disposição diversas técnicas para tratar o quadro via uretra. A mais antiga e consagrada é a chamada ressecção transuretral (RTU) da próstata, que consiste na retirada em fatias da parte central da glândula por corte elétrico ou a plasma. O laser é uma tecnologia mais moderna, mas os resultados ainda não são tão bons quanto os do procedimento tradicional. Assim como muitas outras opções de tratamentos que foram criadas, o laser ainda precisa passar pelo crivo do tempo, do uso em maior quantidade de pacientes e dos urologistas”, explica o médico do Einstein.
O não tratamento do crescimento benigno da próstata em tempo adequado leva a alterações indesejadas e permanentes da bexiga. “Quando o tratamento é feito tardiamente, não importa por qual técnica, os resultados não são tão bons porque a bexiga já não responde bem à desobstrução. Por isso, quanto mais cedo o paciente procurar ajuda médica, melhor”, opina Gustavo Caserta Lemos.