Cultura

Hercule Florence, o Da Vinci tropical

Em manuscrito inédito agora publicado, o tipógrafo francês radicado no Brasil no século XIX conta como descobriu a fotografia, documentou os povos indígenas e escreveu memórias e poemas

Crédito: Divulgação

EXPLORADOR (1824-1829) Habitação dos apiacás em Arinos (MG), em 1828, em aquarela de Hercule Florence feita durante a expedição Langsdorff, que percorreu 16 mil quilômetros pelo interior do Brasil: registro de hábitos indígenas (Crédito: Divulgação)

RETRATO Hercule Florence por volta dos 70 anos, em fotografia em gelatina e prata realizada em São Paulo: talento incógnito (Crédito:Divulgação)

O artista, inventor e tipógrafo Hercule Florence (1804-1879) pode ser descrito pelo chavão do homem certo no lugar e tempo errados. O fato de esse francês nascido em Nice ter-se radicado com a família em 1830 na Vila de São Carlos, atual Campinas, fez com que se isolasse do resto do mundo. Suas criações, memórias e viagens foram esquecidas. As invenções que projetou nunca foram patenteadas. Apesar de ter sido um cérebro inovador do século XIX, só começou a ser parcialmente valorizado um século depois de sua morte.

Graças às pesquisas e ao livro “Hercule Forence — A Descoberta Isolada da Fotografia no Brasil” (1976), do professor Boris Kossoy, Florence é hoje reconhecido como um dos pioneiros do processo fotográfico, ao lado dos conterrâneos Nicéphore-Niépce (1765-1833) e Louis Daguerre (1787-1851) e do inglês Henry Fox Talbot (1800-1877). Ele forjou o termo “fotografia” (“photographie”) sete anos antes do inglês John Herschel, que levou o crédito de o ter criado.

Sapos e balões

Kossoy baseou a investigação em um texto no qual Florence registrou a versão integral de sua vida, composta de memórias, viagens, figuras, poemas e invenções, muitas delas ainda inexploradas. Mas ali há bem mais que uma invenção definitiva. Bem a propósito, intitulou o manuscrito “L’Ami des arts livré à lui-même. Recherches et découvertes sur différent sujets nouveaux” (“O amigo das artes entregue a si mesmo. Pesquisas e descobertas sobre assuntos novos”). Florence levou uma existência repleta de realizações incompletas e solidão criativa. “Sou um inventor no exílio”, escreveu. “No século em que o talento é reconhecido, a Providência me levou a um país onde não se faz caso disso.”

O volume, de 423 páginas, foi redigido entre 1837 e 1859. Para preservá-lo, o tetraneto de Florence, o advogado Antonio Florence, diretor do Instituto Hercule Florence (IHF), está lançando o fac-símile e a transcrição em francês da obra, em uma luxuosa edição em dois volumes acondicionados em uma caixa. A tiragem, de 300 exemplares, destina-se a coleções brasilianas espalhadas pelo mundo. Mas os textos estão disponíveis na íntegra no site do IHF. “Hercule deve ser celebrado como o Da Vinci tropical”, afirma Antonio Florence. Ele planeja ainda patrocinar a tradução do texto para o português. A publicação deve animar pesquisas em várias áreas do saber — não só historiadores, como antropólogos, engenheiros, biólogos e teóricos literários. Florence pesquisou e documentou as aventuras de que tomou parte, como a Expedição Langsdorff, que percorreu 16 mil quilômetros no Brasil entre 1824 e 1829. Na viagem, ele pintou aquarelas e desenhou paisagens, bem como os hábitos dos indígenas, colonos e escravos. Ao longo da vida, desenhou as infinitas variações dos céus do Brasil “para uso dos jovens paisagistas”.

Além da fotografia, criou máquinas de reprodução fotográfica colorida em papel (“poligrafia”) e protótipos de balões. Formulou uma notação estenográfica e o “Systema da arte de escrever a voz dos animaes” (1829), a “zoofonia”, precursora da bioacústica. Em partituras, anotou “vozes” de insetos, répteis e anfíbios. Entre seus achados, projetou uma charrete individual puxada a cavalo para pequenas distâncias. “O trabalho de Florence tem sido encoberto por uma espessa névoa”, diz Kossoy. “Agora o mundo deverá finalmente descobrir sua importância.”