Helio Leite relembra bastidores de artistas como Britney Spears e Charlie Brown Jr.

Com cinco décadas de estrada, o executivo moldou o mercado fonográfico brasileiro e impulsionou fenômenos como Backstreet Boys, NX Zero, entre outros

Acervo Pessoal
Helio Leite relembra bastidores de artistas como Britney Spears Foto: Acervo Pessoal

O mercado fonográfico brasileiro é feito de ciclos, tendências e, acima de tudo, de quem sabe ler o que o público quer antes mesmo do próprio público saber. No centro dessa engrenagem, há mais de 50 anos, está Helio Leite Cosmo. Conhecido no meio como Helinho, ele é o nome por trás das cortinas de alguns dos maiores lançamentos que o país já viu.

De ícones globais a lendas do rock nacional, a trajetória de Helio se confunde com a própria história da indústria fonográfica no Brasil, unindo o rigor técnico de um executivo de alto escalão com a sensibilidade de quem nunca deixou de ser músico.

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A caminhada de Helio começou no palco, como baixista e vocalista da banda Lagoa 66. Mas foi um divisor de águas nos bastidores que revelou sua verdadeira vocação estratégica. Em meados dos anos 90, ao ser confrontado com a realidade comercial de seu projeto autoral, Helio encarou o que chama de “choque de realidade”.

Foi o momento em que entendeu que seu sonho de infância de ser um rockstar ganharia um novo formato. Ao aceitar o convite para integrar o marketing da Virgin Records, ele trocou o microfone pelas planilhas e estratégias de lançamento, iniciando uma ascensão meteórica que o levaria a cargos executivos em gigantes como Universal Music, Arsenal e Midas Music.

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Nesta fase, Helio assinou o planejamento de carreiras que definiriam gerações. No cenário internacional, foi peça-chave na coordenação de lançamentos de ícones como Britney Spears, Backstreet Boys, N’Sync e Lenny Kravitz. O trabalho era, como ele define, artesanal.

Sem o recurso das redes sociais, o segredo era ocupar os espaços físicos e sensoriais: da curadoria estética na MTV Brasil e nas páginas das revistas Capricho e Toda Teen, até a transformação das lojas de discos em pontos de experiência imersiva. Em entrevista à IstoÉ Gente, ele relembra o caso: “A gente fazia o público ouvir e enxergar o artista. Se a música era sucesso lá fora, precisávamos fazer ela chegar aqui com rádio e presença total no ponto de venda”.

Helio Leite posa com o grupo Backstreet Boys em 1999

Essa mesma visão aguçada foi aplicada no cenário nacional, onde Helio ajudou a lapidar o sucesso de nomes como Charlie Brown Jr., NX Zero, Fresno, Manu Gavassi e Titãs. Para ele, o “feeling” sempre foi seu maior aliado. Ele recorda que o termômetro era o burburinho orgânico das ruas; era preciso estar presente no Hangar 110 para sentir o impacto de uma banda como o NX Zero antes que ela se tornasse um fenômeno de massas. Com o Charlie Brown Jr., a percepção veio de uma identidade sonora contundente que já se impunha nos primeiros shows, quando a banda ainda abria para o seu próprio projeto musical.

Hoje, aos 60 anos, Helio canaliza essa bagagem para uma consultoria que se diferencia pelo olhar humanizado e pela crítica ao imediatismo digital. Em suas redes sociais, onde seus vídeos sobre longevidade e autoconhecimento já ultrapassam 1,5 milhão de visualizações, ele se posiciona contra as “fórmulas de sucesso” vendidas na internet.

Para ele, prometer sucesso instantâneo é “vender terreno no mar”. “Não existe fórmula. O que existe é verdade, identidade e muito trabalho”, afirma Helio. Sua filosofia de “viver e tratar o artista no hoje” é um convite para que os novos talentos não coloquem toda a sua felicidade em um futuro incerto, mas que encontrem realização em cada etapa do processo.

Essa visão contemporânea é reforçada por sua atuação contínua como comunicador. Com formação de radialista desde 1985 e fã de vozes históricas do rádio paulista, Helio mantém sua cadeira há mais de uma década na Energia 97 FM, no programa Morde e Assopra. Ele defende que o rádio continua sendo o meio capaz de transformar música em cultura e consolidar hits que atravessam gerações, furando as “bolhas” criadas pelos algoritmos das plataformas de streaming.

Mas o que realmente mantém o fôlego de Helio após cinco décadas de uma carreira tão intensa? A resposta está em um sentimento que resiste a todas as mudanças da indústria. “Tudo o que eu faço gira em torno de uma única coisa: o amor que tenho pela música”, confessa. É esse amor que o move, que lhe dá energia e que o mantém em constante construção como ser humano. Ele entende que, para cuidar da carreira dos outros, precisou primeiro aprender a cuidar da própria essência — do corpo, da mente e da espiritualidade.

Entre consultorias, gravações com sua banda Father Music Reunion e análises de bastidores, Helio prova que o talento e a conexão não têm prazo de validade. Enquanto houver uma nota soando e a curiosidade de evoluir, ele estará lá, pronto para o próximo capítulo. Como ele mesmo gosta de dizer ao abraçar cada novo desafio: “Segue o baile… literalmente!”.