Hackers invadem sistemas de alerta da Rússia e Ucrânia após fim de trégua

Ataques cibernéticos provocaram avisos falsos sobre ameaças nucleares e químicas; invasões ocorreram horas depois do encerramento de cessar-fogo humanitário em Kherson

Hackers invadem sistemas de alerta da Rússia e Ucrânia após fim de trégua

Sistemas de alerta de emergência utilizados pela população da Rússia e da Ucrânia foram alvos de ataques cibernéticos que provocaram o envio de notificações falsas sobre possíveis ameaças nucleares, químicas e militares. Os incidentes foram registrados entre a noite de domingo (1º) e a madrugada desta segunda-feira (2), poucas horas após o encerramento de um cessar-fogo localizado no sul da Ucrânia.

As invasões atingiram aplicativos responsáveis por transmitir informações de segurança à população, causando preocupação entre moradores de diferentes regiões dos dois países.

Na Ucrânia, usuários receberam mensagens sobre supostos ataques radiológicos, lançamento de armamentos nucleares e confrontos nas ruas da capital, Kiev.

Horas depois, autoridades russas também relataram uma invasão semelhante em um aplicativo utilizado pelo Ministério de Situações de Emergência.

Os episódios ocorreram em um momento de tensão entre os países, após o término de uma pausa humanitária de seis dias na região de Kherson.

Alertas falsos provocaram preocupação na Ucrânia

As primeiras notificações fraudulentas começaram a circular pouco antes das 23h de domingo, no horário local.

Moradores de Kiev e de outras regiões ucranianas receberam avisos classificados como críticos, indicando supostas ameaças químicas, radiológicas e confrontos armados.

Uma das mensagens afirmava que a Rússia havia lançado um míssil hipersônico Oreshnik, armamento com capacidade de transportar ogivas nucleares.

O aviso também mencionava a declaração de um alerta nuclear em todo o território ucraniano.

Outras notificações orientavam a população a permanecer dentro de casa devido a supostos combates nas ruas.

As autoridades ucranianas identificaram inconsistências nas mensagens e passaram a investigar a possibilidade de comprometimento do sistema.

Um dos indícios apontados foi o idioma utilizado nos alertas, que foram enviados em russo, embora as comunicações oficiais de emergência na Ucrânia devam ser realizadas em ucraniano.

A Força Aérea do país informou que o aplicativo aparentemente havia sofrido interferência externa e esclareceu que não existia ameaça radiológica confirmada.

O governo também pediu que os moradores mantivessem a calma e acompanhassem informações divulgadas pelos canais oficiais.

Governo ucraniano suspendeu aplicativo temporariamente

Após a identificação das mensagens falsas, órgãos responsáveis pela segurança digital e pela comunicação governamental iniciaram procedimentos para conter o incidente.

O Centro Ucraniano de Combate à Desinformação esclareceu que os alertas divulgados pelo aplicativo não correspondiam a ameaças reais.

Já o Centro Ucraniano para Comunicações Estratégicas atribuiu a invasão à Rússia.

A acusação, entretanto, não foi acompanhada de evidências técnicas divulgadas publicamente que permitissem confirmar a autoria do ataque.

O Ministério da Transformação Digital da Ucrânia anunciou a suspensão temporária do aplicativo comprometido enquanto especialistas trabalhavam para identificar a origem da invasão e restabelecer a segurança da plataforma.

Segundo o governo, outros mecanismos de proteção civil, incluindo as sirenes utilizadas para alertar sobre ataques aéreos, continuaram funcionando normalmente.

Mensagens posteriores foram encaminhadas aos usuários para cancelar os avisos fraudulentos.

Rússia também registra invasão em sistema de emergência

Poucas horas depois do incidente na Ucrânia, autoridades russas anunciaram que um aplicativo do Ministério de Situações de Emergência havia sido alvo de um ataque cibernético de grandes proporções.

Segundo o governo russo, os invasores conseguiram utilizar a plataforma para enviar informações falsas à população.

Entre as notificações divulgadas estava um alerta sobre o suposto lançamento de ogivas nucleares contra diferentes regiões do país.

A mensagem orientava moradores a procurar abrigo em porões e armazenar alimentos suficientes para três semanas.

O conteúdo, no entanto, apresentava características diferentes das comunicações oficiais, incluindo linguagem informal, expressões ofensivas e críticas ao governo russo.

O grupo de hackers pró-Ucrânia Atesh divulgou uma imagem de uma das mensagens e afirmou que o sistema russo havia sido comprometido.

As autoridades de Moscou minimizaram os efeitos da invasão, argumentando que o aplicativo atingido funciona como uma ferramenta complementar de comunicação e não representa o principal mecanismo de alerta emergencial do país.

Especialistas foram mobilizados para recuperar o funcionamento normal da plataforma.

O Ministério de Situações de Emergência também orientou a população a desconsiderar mensagens suspeitas e consultar exclusivamente os canais oficiais.

Ataques ocorreram após encerramento de trégua em Kherson

Os incidentes cibernéticos coincidiram com o término de um cessar-fogo localizado na região de Kherson, no sul da Ucrânia.

A pausa nos combates começou em 27 de outubro e terminou em 1º de novembro, abrangendo a cidade de Oleshki, ocupada pelas forças russas desde 2022.

A iniciativa humanitária contou com a intermediação da primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump.

Durante os seis dias de trégua, foi autorizada a entrada de uma missão humanitária na região, além da saída voluntária de moradores em direção a áreas controladas por forças ucranianas ou russas.

O comissário de direitos humanos do Parlamento ucraniano, Dmytro Lubinets, confirmou o encerramento do acordo no domingo.

Apesar da suspensão temporária das hostilidades em Oleshki, confrontos militares continuaram em outras partes do território ucraniano.

Um oficial militar da Ucrânia, que não teve a identidade divulgada, afirmou que tropas russas teriam aproveitado o período de trégua para reforçar posições militares na margem oposta do rio Dnipro.

Segundo o relato, houve movimentação de soldados, deslocamento de reservas de munição e utilização de drones para reconhecimento de posições ucranianas.

As alegações não foram confirmadas de maneira independente.

Ataques contra instalações de energia continuam

Enquanto a trégua localizada chegava ao fim, a guerra continuava atingindo instalações estratégicas dos dois países.

No domingo, autoridades russas informaram que um drone havia atingido uma instalação industrial localizada a leste de Moscou.

Informações divulgadas na Ucrânia indicaram que o possível alvo seria a refinaria de petróleo de Kstovo, considerada uma das principais instalações do setor energético russo.

A Ucrânia intensificou ataques contra estruturas ligadas à produção e ao processamento de petróleo em território russo.

Kiev argumenta que essas operações representam uma resposta aos bombardeios realizados por Moscou contra sua infraestrutura energética.

As ofensivas também buscam atingir instalações consideradas relevantes para o abastecimento e para a economia de guerra russa.

O governo americano, entretanto, demonstra preocupação com os possíveis efeitos dessas ações sobre os preços internacionais dos combustíveis.

O presidente Donald Trump tem pressionado a Ucrânia a reduzir ataques contra refinarias russas, alegando que as ofensivas podem contribuir para a elevação dos preços do diesel.

Zelensky condiciona suspensão de ataques a medidas de Moscou

O presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, afirmou no domingo que seu governo poderá considerar a interrupção dos ataques contra refinarias russas mediante determinadas condições.

Entre as possibilidades mencionadas está a suspensão dos bombardeios russos contra a rede elétrica ucraniana.

Outra alternativa seria o fornecimento de novos mísseis interceptadores Patriot pelos Estados Unidos, ampliando a capacidade de defesa aérea da Ucrânia.

A declaração foi feita durante entrevista à emissora americana Fox News.

Zelensky argumentou que os ataques ucranianos contra instalações petrolíferas representam uma resposta às ofensivas russas contra estruturas essenciais para o funcionamento do país.

A infraestrutura elétrica da Ucrânia permanece entre os principais alvos da campanha militar russa, especialmente em períodos de maior demanda energética.

A possibilidade de novos acordos relacionados à proteção dessas instalações depende de negociações entre Kiev, Moscou e seus interlocutores internacionais.

Negociações podem ser retomadas em novembro

O encerramento da trégua em Kherson ocorre em meio à expectativa de retomada das negociações diplomáticas entre Rússia e Ucrânia.

As conversas estão paralisadas desde fevereiro, mas há expectativa de que novos contatos sejam realizados ainda em novembro, com participação dos Estados Unidos na mediação.

A guerra começou em fevereiro de 2022, quando forças russas iniciaram uma invasão em larga escala do território ucraniano.

Mais de quatro anos depois, Moscou mantém o controle de aproximadamente um quinto do território da Ucrânia, enquanto os combates continuam em diferentes setores da linha de frente.

Os recentes ataques contra aplicativos de emergência evidenciam outra dimensão do conflito: a utilização de ferramentas digitais para disseminar informações falsas e provocar insegurança entre a população civil.

Além das operações militares convencionais, a guerra também envolve disputas cibernéticas e campanhas de desinformação capazes de comprometer sistemas de comunicação considerados essenciais em situações de emergência.

Da IstoÉ