SÃO PAULO, 4 AGO (ANSA) – Por Tatiana Girardi – Há um ano, no dia 5 de agosto de 2016, os olhos do mundo estavam voltados para o Rio de Janeiro. As primeiras Olimpíadas da história na América do Sul causaram uma onda de euforia tanto entre os brasileiros como nos milhões de visitantes que vieram o país para acompanhar o maior evento esportivo da Terra.
Mas, 365 dias depois, a alegria de sediar o evento foi embora. A volta dos frequentes episódios de criminalidade à cidade, que fizeram com que o governo do estado pedisse ajuda de Brasília, os problemas com o Maracanã e o Parque Olímpico, além da quase “falência” das contas públicas do estado do Rio de Janeiro ofuscaram a importância de ter realizado o evento.
O grande legado olímpico para os cariocas foi, sem dúvida, a melhoria na infraestrutura de transportes. Apesar de ainda não estar tudo funcionando em sua capacidade máxima e de algumas estações ainda estarem prontas, a Linha 4 do metrô ajuda milhares de moradores da capital do estado a se locomoverem.
Outro ponto positivo foi a revitalização da área portuária, que atrai visitantes nacionais e internacionais com seus museus e restaurantes. Até mesmo um local esquecido e descoberto em uma escavação para construção de obras olímpicas, o Cais do Valongo, local símbolo da chegada de escravos do Brasil Colonial, tornou-se um dos Patrimônios da Humanidade da Unesco no mês passado.
Mas, na questão ambiental, a maior parte das promessas ficou no papel. A despoluição da Baía de Guanabara foi envolta em polêmicas e não cumpriu a promessa de deixar um dos cartões postais do Rio de Janeiro limpo – até mesmo durante as provas era possível sentir o mau cheiro.
Outro ponto negativo 12 meses após o evento é saber quanto ele, de fato, custou. Estimativas da Procuradoria da República apontam valores em cerca de R$ 40 bilhões, mas a Matriz de Responsabilidades, que deveria ter o montante atualizado fala em “apenas” R$ 7,23 bilhões. Tanto o Ministério Público Federal como o Tribunal de Contas da União tem investigações em andamento para descobrir o valor real dos gastos.
– Arenas: Patrimônio do futebol mundial, o Maracanã continua sem uso.
Problemas na concessão do estádio, abandono e brigas judiciais deixaram o “maior estádio do mundo” de portas fechadas. Aqui, como em outras obras construídas na cidade, além dos problemas de má gestão, a crise econômica que se agravou no Brasil também mostrou sua cara.
Assim como ocorreu com a Arena do Futuro e a Carioca 3, que serviriam para crianças carentes e escolas, mas que não funcionam para o objetivo principal.
Já as instalações olímpicas em Deodoro realizam eventos com um pouco mais de frequência, em parceria com as federações esportivas. No último fim de semana, por exemplo, o Centro Militar de Tiro Esportivo, o Parque Equestre e a Arena da Juventude receberam campeonatos que contaram com a participação de mais de mil atletas. Atualmente, quem gere e organiza o chamado “legado” é a Autoridade de Governança do Legado Olímpico (Aglo), sob o comando do Ministério do Esporte.
De acordo com a entidade, sua missão é “estabelecer o planejamento estratégico, tático e operacional da autarquia para a manutenção e o desenvolvimento sustentáveis do lega olímpico dos Jogos Rio 2016 como instrumento de progresso esportivo e social brasileiro”.
Em um documento editado em junho deste ano, a Aglo informa seu plano de ação tanto para a esfera esportiva, como social e econômica. Nos objetivos de curto prazo, o relatório aponta que será elaborado “um plano de utilização das instalações olímpicas e paralímpicas”, que será feita a viabilização da “adequação, manutenção e utilização das instalações”.
Além disso, o documento firmado há menos de dois meses mostra que serão estabelecidas “parcerias com a iniciativa privada para a execução de empreendimentos de infraestrutura destinados à melhoria e à exploração da utilização das instalações esportivas, aprovadas previamente pelo Ministério do Esporte”.
Apesar de não estabelecer datas de quando isso irá ocorrer, a Aglo informa ainda que, no médio prazo, o órgão quer “administrar as instalações olímpicas e promover estudos que proporcionem subsídios para a adoção de modelo de gestão sustentável sob os aspectos econômico, social e ambiental”.
Mas, se o cenário atual não empolga, talvez uma esperança possa vir de Londres. Após sediar os Jogos Olímpicos em 2012, a cidade fechou as instalações construídas para o evento por um ano.
Outros locais e equipamentos esportivos chegaram a ficar fechados por três anos. Após esse período, o local se tornou um dos pontos revitalizados mais importantes como “legado olímpico” no mundo, dando vida novamente a um dos pontos mais abandonados da capital londrina. Investigações: Às vésperas do primeiro aniversário, mais um golpe no “legado” das Olimpíadas. A Polícia Federal deflagrou a operação Rio 40 graus e prendeu o ex-secretário de Obras da gestão de Eduardo Paes, Alexandre Pinto. O secretário era, nada mais, nada menos do que o responsável pelas obras que vieram na esteira dos Jogos, com exceção da revitalização de toda a região portuária. Além disso, as obras de reforma do Maracanã também estão na mira da Justiça. Segundo o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro houve superfaturamento de cerca de R$ 200 milhões na construção. O Consórcio Maracanã, que ganhou a licitação, era formado pelas empreiteiras Odebrecht, Andrade Gutierrez e Delta Engenharia – todas sob investigação em mega escândalos de corrupção nos últimos anos.
Até mesmo a prisão do ex-governador do Rio Sérgio Cabral tem como uma de suas centenas de acusações a reforma do Maracanã. De acordo com os procuradores, ele teria recebido 5% do valor da obra em propinas. (ANSA)