Guerra no Oriente Médio pressiona recuperação da economia alemã

Guerra no Oriente Médio pressiona recuperação da economia alemã

"MerzAltos custos de energia, aumentos nos preços ao consumidor e interrupções na cadeia de abastecimento ameaçam a recuperação econômica e os avanços modestos obtidos pelo governo de Friedrich Merz.Quando os EUA e Israel atacaram o Irã, a resposta não tardou: o Irã ordenou o bloqueio do Estreito de Ormuz, o gargalo no Golfo Pérsico por onde passa 20% do comércio global de petróleo diariamente.

Após o ataque, o preço do petróleo subiu acentuadamente de imediato. Os preços da gasolina e do diesel também dispararam nos postos de combustíveis alemães. Dependendo da região, a gasolina premium chegou a custar 2,50 euros (R$ 15,11) por litro. O preço médio do diesel está atualmente um pouco acima de 2 euros, o que representa um aumento de 0,30 euros em relação ao período anterior ao ataque ao Irã.

Houve aumentos ainda mais extremos nos preços do gás natural após os ataques de drones iranianos a instalações de gás natural liquefeito (GNL) no Catar, que resultaram na paralisação da produção.

A Alemanha não importa GNL diretamente do Catar. Suas cadeias de suprimentos são diversificadas e grande parte de seu gás é proveniente de gasodutos noruegueses. No entanto, o preço é determinado, em última análise, pelo mercado atacadista europeu, que é impulsionado pelo equilíbrio entre a oferta internacional e a demanda atual e esperada.

O aumento dos preços da energia não afeta apenas os consumidores, mas também a indústria, resultando em custos de produção mais altos. Os setores com uso intensivo de energia são particularmente afetados, como os de produtos químicos, aço, vidro e papel, mas as indústrias automotiva e de engenharia mecânica também sentem os efeitos.

Choque para o governo Merz

A guerra no Irã vem servindo para lembrar a Alemanha do quão vulneráveis são as economias altamente industrializadas em uma era de crise global.

Economistas alemães expressaram preocupações semelhantes, assim como Veronika Grimm, uma das cinco especialistas que assessoram o governo alemão em assuntos econômicos, que alerta para o aumento da inflação e a incerteza adicional sobre os investimentos. "Devemos nos preparar para um período prolongado de maior incertezas", disse a professora ao grupo de mídia alemão RND.

Sinais de alerta também soam nos círculos políticos alemães. O governo federal há dez meses é liderado por uma coligação entre as legendas conservadoras União Democrata Cristã (CDU) – do chanceler federal Friedrich Merz – e União Social Cristã (CSU) com o Partido Social-Democrata (SPD), de centro-esquerda.

Durante a campanha eleitoral e ao assumir o cargo de chanceler federal, Merz prometeu que a recuperação da economia alemã seria a sua principal prioridade, mas isso ainda não se materializou. A pequena recuperação que a Alemanha viu no início do ano pode agora ser desfeita pela guerra no Irã.

Veneno para a economia

Os preços da energia na Alemanha aumentaram drasticamente desde a invasão da Ucrânia pela Rússia. Os novos aumentos de preços, juntamente com cadeias de abastecimento instáveis e incertezas globais adicionais, vêm se mostrando tóxicos para a economia alemã.

Grimm defende que o fornecimento de energia da Europa se torne mais resiliente através da diversificação das cadeias de abastecimento, da formação de reservas, da coordenação das compras europeias e da aceleração da expansão do seu próprio fornecimento de energia.

Desde que o fornecimento de gás da Rússia foi cortado há quatro anos, aumentam os apelos para que estas medidas sejam implementadas. O único problema é que isso tem sido difícil de colocar em prática. Após um inverno extremamente rigoroso na Alemanha, os depósitos de gás natural estão praticamente vazios.

Freio no transporte e na aviação

Além da crise energética, a guerra no Irã vem causando problemas adicionais, especialmente para o setor de transporte marítimo. As empresas alemãs do setor agora precisam contornar o Golfo Pérsico, o que causa atrasos e compromete a segurança das cadeias de suprimentos globais.

Os prêmios de seguro para o transporte marítimo estão aumentando, assim como os custos de combustível. O espaço aéreo sobre os países do Golfo está parcialmente fechado. As companhias aéreas precisam redirecionar seus voos por longas rotas. Isso não apenas aumenta o tempo de viagem, mas também eleva os gastos com combustíveis.

A cada dia que os preços da energia sobem, cresce o risco de a inflação aumentar novamente. Isso ocorre porque as empresas precisam repassar os custos, aumentando os preços de seus produtos. Esse fator vem impulsionando a inflação desde a crise energética de 2022, algo que os consumidores certamente notaram.

À medida que o custo de vida aumenta, o poder de compra dos consumidores diminui, o que impacta negativamente a economia doméstica. Por outro lado, a Alemanha se torna menos competitiva internacionalmente, já que seus produtos ficam mais caros. Isso representa outro grande problema para um país com uma economia voltada para a exportação.

Como o governo alemão está respondendo?

Embora o governo esteja ciente dos problemas, sua resposta tem sido discreta até o momento. A ministra da Economia e Energia, Katherina Reiche (CDU), criou uma força-tarefa para realizar análises diárias da situação e preparar possíveis medidas. O objetivo é monitorar a explosão de preços, supervisionar a segurança das cadeias de suprimentos e avaliar o impacto disso nas empresas. Seu anúncio foi recebido com comentários sarcásticos nas redes sociais.

O fato é que o governo lucra muito com os altos preços dos combustíveis. Quase metade do que os motoristas pagam na bomba vai para os cofres do Estado por meio de vários impostos. Grupos de lobby, como o clube automobilístico Mobil in Deutschland, acusam o governo federal de "lucrar com os motoristas".

Muitas críticas à política energética da Alemanha

O governo federal tenta transmitir uma sensação de estabilidade em meio à crise, ressaltando que medidas já foram implementadas para aliviar os preços de energia, como a redução do imposto sobre eletricidade para empresas e a abolição de várias taxas. Mas os críticos reclamam que o governo Merz continua a promover a dependência dos combustíveis fósseis em vez de a reduzir para cumprir as metas climáticas.

Associações ambientais e de consumidores criticam o fato de a expansão das energias renováveis ter estagnado. A legislação tem travado a expansão dos projetos de energia eólica e solar. Em meio à incerteza global, a Alemanha parece agora menos resistente a crises do que deveria ser.