A estratégia iraniana de responder em todas as frentes aos bombardeios americanos e israelenses reacende o espectro do terrorismo de Estado nos países ocidentais, onde Teerã é acusado de ter tecido uma rede de agentes e criminosos locais.
A polícia da Noruega anunciou nesta quarta-feira (11) a prisão de três irmãos noruegueses de origem iraquiana, suspeitos de terem perpetrado um “atentado terrorista com bomba” contra a embaixada dos Estados Unidos no fim de semana passado em Oslo, sem causar vítimas.
“Continuamos trabalhando sobre várias hipóteses. Uma delas é que possa se tratar de uma operação encomendada por um ator estatal”, declarou um responsável da polícia, Christian Hatlo, sem especificar a que Estado se referia.
“O Irã considera o terrorismo como uma extensão de sua política externa, um meio assimétrico de atingir seus inimigos além de suas fronteiras”, recordava em agosto o pesquisador Matthew Levitt na publicação especializada CTC Sentinel.
– Proteção reforçada –
Desde sua criação em 1979, a República Islâmica do Irã tem sido regularmente acusada de organizar ou patrocinar atentados na Europa, como assassinatos seletivos de opositores ou atentados a bomba.
Serviços de inteligência de vários países afirmam que o país também estabeleceu alianças com diversas redes criminosas às quais subcontrata para ações violentas.
Em 2021, a Justiça belga condenou um agente iraniano da embaixada em Viena por ter organizado um plano de atentado contra opositores em Villepinte, perto de Paris, em 2018.
Em junho de 2024, em Haarlem (Países Baixos), um iraniano residente no país foi vítima de uma tentativa de assassinato pela qual duas pessoas foram detidas. Uma delas também é suspeita da tentativa fracassada de assassinato do político espanhol e crítico do Irã Alejo Vidal-Quadras, ocorrida na Espanha em 2023.
“Ambas as tentativas de assassinato se encaixam no modus operandi que o Irã vem utilizando há anos: recorrer a redes criminosas na Europa para silenciar aqueles que considera opositores ao regime. Com base em informações de inteligência, é provável que o Irã seja responsável pelas duas tentativas de assassinato”, estima o serviço de segurança neerlandês AIVD em seu relatório anual de 2024.
Os serviços de segurança de vários países europeus reforçaram a proteção de certos locais e pessoas desde o início da campanha de bombardeios aéreos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro.
Houve três ataques na Europa e nos Estados Unidos, sem que tenha sido estabelecida qualquer responsabilidade iraniana.
Além do ocorrido contra a embaixada na Noruega, um americano de origem senegalesa matou pelo menos duas pessoas em Austin, Texas, em um caso que o FBI considera que pode ser um ato terrorista.
Segundo o site de monitoramento SITE, o indivíduo expressava nas redes sociais “opiniões pró-regime iraniano e ódio contra os dirigentes israelenses e americanos”.
Na Bélgica, uma sinagoga em Liège foi alvo de um ataque com um artefato explosivo.
– “Nova estratégia” –
Numerosos serviços de inteligência europeus acusam o Irã de dispor de uma rede composta por agentes e criminosos para realizar operações clandestinas.
“Redes criminosas têm substituído cada vez mais os serviços iranianos na execução de ataques violentos no exterior. É preciso partir do princípio de que essa nova estratégia vai se intensificar”, afirmam os serviços austríacos (DSN) em seu relatório de 2024.
Esses subcontratados procedem “do crime organizado, dos cartéis de droga, das milícias pró-iranianas, de organizações terroristas, mas também são criminosos isolados e membros de gangues violentas”.
Ativar essas redes de subcontratados criminosos seria a opção mais provável e simples para o Irã, afirma Thomas Renard, diretor do Centro Internacional para a Luta contra o Terrorismo (ICCT), com sede nos Países Baixos.
Teerã também poderia, segundo Renard, “ativar as redes ligadas ao Hamas e ao Hezbollah na Europa”.
“O Irã é o principal patrocinador dessas organizações, embora elas possam ter objetivos diferentes dos de Teerã”, afirma.
“Menos provável, mas muito grave, seria a ativação de agentes iranianos infiltrados na Europa. Queimar seus agentes costuma ser uma solução de último recurso”, sustenta o pesquisador.
Para Renard, resta por fim a hipótese da ação de um indivíduo isolado, seguindo o modelo do que o grupo jihadista Estado Islâmico (EI) pede a seus seguidores.
“Estamos em um contexto tenso no qual podem ocorrer ações de indivíduos isolados, porque eles se encontram em um ciclo de forte consumo de propaganda combinado com um ciclo midiático intenso que atrairia muita atenção para um eventual ataque”, explica.
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