Guerra no Irã expõe contradições da política externa alemã

Guerra no Irã expõe contradições da política externa alemã

"JuristasMaioria dos especialistas em direito internacional não tem dúvidas sobre ilegalidade de ações dos EUA na Venezuela e no Irã. Mas o governo alemão tem hesitado em condená-las.Os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. Suas forças armadas mataram membros do governo e muitos civis. Semanas antes, forças especiais dos EUA capturaramo presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa — e também provocaram mortes de civis. A grande maioria dos especialistas em direito internacional considera as duas ações militares ilegais.

Mesmo assim, o chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, não condenou claramente os ataques.

Ao comentar a guerra no Irã, ele citou o que chamou de "dilema": "Medidas de direito internacional contra um regime que aumenta sua capacidade nuclear e reprime brutalmente seu próprio povo claramente não têm efeito."

Quanto à captura de Maduro, disse que a situação jurídica é "complexa".

Antes de sua visita à Casa Branca, logo após os primeiros ataques ao Irã, Merz também afirmou não querer "dar lições" sobre direito internacional ao presidente dos EUA, Donald Trump. A oposição acusa o premiê alemão de bajular o chefe da Casa Branca.

Direito internacional esvaziado?

Especialistas em direito internacional criticaram a postura do governo alemão em uma carta aberta.

"As declarações do governo até agora não mostram uma condenação clara das ações ilegais e contribuem para o enfraquecimento da ordem internacional baseada em regras e instituições na Europa e no mundo", afirmam no texto publicado em 17 de março em um blog especializado.

Uma das signatárias da carta é Janina Dill, pesquisadora de direito internacional da Universidade de Oxford. no Reino Unido.

"No momento, a política das grandes potências — especialmente a virada na política americana, seu afastamento do direito internacional — prejudica demais o Direito", afirma Dill à DW.

Anne Peters, diretora do Instituto Max Planck de Direito Público Estrangeiro e Internacional, afirma que tolerar violações do direito internacional é pôr em cheque a proibição do uso de força, e pode mudar regras até então tidas como consensuais. "O direito internacional não escrito pode mudar quando violações não são contestadas", aponta.

Alemanha não hesitou ao condenar a Rússia de Putin

Chama atenção que o chanceler relativize o direito internacional no caso da Venezuela e do Irã, mas condene de forma dura e clara a violação do direito internacional pela Rússia na guerra da Ucrânia.

"De fato, o chanceler parece ter uma relação situacional com o direito internacional", observa Henning Hoff, da Sociedade Alemã de Política Externa.

É uma crítica que vem também do Sul Global, que acusa o Ocidente de defender o direito internacional quando isso lhe interessa, mas ignorá-lo em outras situações.

Mas Estados não são obrigados a criticar ou sancionar uns aos outros de forma uniforme, lembra Peters.

"A Alemanha pode, por motivos políticos, criticar um Estado — por exemplo, a Rússia de [Vladimir] Putin — e não criticar outros. Isso é diferente de uma organização internacional, que tem mandato para ser neutra", explica. "Mas é claro que é prejudicial à credibilidade de um Estado, inclusive da Alemanha, quando situações iguais são avaliadas de modo desigual."

A jurista alemã, contudo, pondera que em alguns casos a acusação de hipocrisia é mera retórica "oportunista". "Essa acusação de que principalmente o Ocidente tem padrões duplos é repetida pela China e pela Rússia. Mas isso é oportunismo, porque esses países não querem que sanções sejam aplicadas igualmente. Eles querem que não haja críticas nem sanções."

Por que defender o direito internacional interessa à Alemanha

Dill, de Oxford, vê uma tendência global preocupante de "afastamento entre o poder militar e econômico real e a vontade de proteger o direito internacional".

Isso vale não só para Rússia e China, mas também cada vez mais para os EUA. "As grandes potências se interessam cada vez menos pela aplicação do Direito."

Por isso, ela diz que é ainda mais importante que países menos influentes, como a Alemanha, defendam o direito internacional. "Esses Estados precisam das normas, das instituições e das regras de resolução pacífica de conflitos ainda mais quando as grandes potências agem sem limites e controle legal, e até ameaçam o Direito."

Merz levou indireta do presidente

O chanceler federal Friedrich Merz, da sigla conservadora União Democrata Cristã (CDU), já demonstrou não querer participar da guerra no Irã ao lado dos EUA, mas ainda não respondeu à questão do direito internacional — diferentemente do presidente Frank-Walter Steinmeier, que é social-democrata.

Recentemente, Steinmeier classificou de "erro desastroso" a guerra contra o Irã iniciada por Israel e pelos EUA, e mandou um recado ao governo que Merz encabeça: "Nossa política externa não se torna mais convincente ao deixar de nomear uma violação do direito internacional como tal. O direito internacional não é uma luva velha que devemos tirar quando outros o fazem. Pelo contrário: ele é vital para todos que não pertencem às grandes potências."

É muito incomum que o presidente discorde abertamente do premiê em uma questão tão importante de política externa — no regime parlamentarista da Alemanha, o governo está nas mãos do chanceler federal, enquanto o presidente cumpre funções majoritariamente representativas.

Merz ainda não respondeu à crítica de Steinmeier. O líder da bancada da conservadora no Parlamento, Jens Spahn, porém, pediu ao presidente que seja mais contido. "A análise jurídica cabe ao governo federal, e eu espero que as autoridades esperem essa análise e a respeitem", declarou.

O governo federal também estaria dando "tempo" a si mesmo para fazer sua avaliação jurídica da ação militar dos EUA na Venezuela em janeiro, segundo Spahn. Até hoje, não há um posicionamento oficial.