Em uma semana desde que Estados Unidos e Israel se uniram para bombardear o Irã, inaugurando um novo conflito militar internacional, um cenário de incertezas, impactos econômicos globais e risco de expansão foi instaurado.
Poucas horas após o primeiro ataque a Teerã, o presidente americano, Donald Trump, e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, anunciaram a morte do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo iraniano por 37 anos. Vários outros comandantes da Guarda Revolucionária também foram mortos na data.
A ofensiva desencadeou uma reação do Irã, que lançou mísseis e drones em países como Bahrein, Catar, Kuwait e Emirados Árabes, aliados dos EUA no Oriente Médio. O suposto alvo mais recente foi o Azerbaijão, mas tropas iranianas negam envolvimento.
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Na quinta-feira, 5, a Guarda Revolucionária anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, para navios americanos, israelenses, europeus e de outros aliados ocidentais dessas nações. Os indicadores de referência do petróleo subiam cerca de 7% diante do risco de interrupção no fornecimento de combustíveis; o dólar atingiu seus maiores índices de 2026.
Mesmo com os riscos, autoridades das três nações envolvidas mantiveram a retórica bélica. A Casa Branca classificou o conflito como a prova de que Trump “não blefa” e prometeu avançar buscar o domínio completo do espaço aéreo iraniano. O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, prometeu que as tropas irão “localizar, fixar e destruir os mísseis e a base industrial de defesa das Forças Armadas iranianas”.
Trump foi mais enfático. Declarou que “a maioria das pessoas que tinha em mente já morreu”, mas prometeu uma terceira onda de ataques. Diante deste cenário de incerteza, a IstoÉ entrevistou o especialista em geopolítica Heni Ozi Cukier, docente da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica) e autor do canal Professor HOC, para entender as perspectivas de continuidade do conflito.
Irã, EUA e Israel: o que esperar do conflito?
IstoÉ Trump atrelou a morte de Khamenei à mudança de regime do Irã, mas o país preparou previamente a sucessão do aiatolá, demonstrando organização. Há chance efetiva do regime iraniano ser alterado por esse conflito?
Professor HOC Essa mudança depende de muitas outras coisas que não sabemos se o governo americano está disposto a fazer e, independentemente disso, não seria definida rapidamente.
Há elementos novos na equação, como a entrada dos curdos, armados pela CIA e por Israel, como uma resistência armada interna; o ataque do Irã ao Azerbaijão pode gerar um processo similar, caso os azeris também sejam armados. Com este cenário e uma extensão dos ataques americanos, uma mudança de regime se torna factível; com bombardeios específicos, não.

Aiatolá Ali Khamenei, líder supremo iraniano morto nos ataques de EUA e Israel
IstoÉ A contraofensiva iraniana e este potencial de expansão dos ataques americanos podem provocar uma expansão territorial mais significativa do conflito?
Professor HOC O conflito já foi ampliado. Não acredito que a entrada de dois países novos, como Turquia e Azerbaijão, altere esse conceito, até pela capacidade de alcance dos mísseis iranianos, que é uma incógnita.
IstoÉ A Casa Branca classificou o ataque ao Irã como prova de que Trump não blefa. Este conflito sedimenta uma posição ofensiva do governo americano?
Professor HOC É perigoso tirar conclusões absolutas de um episódio como este. Em várias outras situações, Trump foi “Taco” [sigla para ‘Trump Always Chickens Out’, ou ‘Trump sempre volta atrás’, expressão utilizada por críticos para caracterizar demonstrações de hesitação do republicano], ou seja, apenas blefou. A Groenlândia e a China são exemplos; no tarifaço, Trump começou e voltou atrás.
Em outras, ele foi ao ataque. Portanto, não é possível dizer que ele não blefa, apenas que há uma disposição maior a usar a força do que havia em outras administrações.
Em um contexto global de extrema desordem e insegurança, estabelecer a força [militar] como um elemento preponderante para a manutenção do equilibrio de poder e estar disposto a utilizá-la é, por mais contraditório que possa parecer, um indício de estabilidade.

Donald Trump prometeu intensificar ataques militares
IstoÉ Estabilidade?
Professor HOC Estabilidade, porque quando se vive sob uma ordem em que o que vale é a força e todos os jogadores a utilizam, mas a maior potência [os EUA] não, cria-se um entendimento de que as demais nações estão livres para utilizar a força de forma mais agressiva e desestabilizadora.
Ao verem que os EUA estão dispostos a usar a força, China e Rússia pensam duas vezes antes de decisões do tipo. Isso traz uma estabilidade para o sistema global, de modo que ninguém começa a tirar vantagem.
IstoÉ Essa é uma das explicações para a China não ter sinalizado reação aos ataques no Irã, uma nação com quem tem boas relações?
Professor HOC A China não vai reagir porque tem outras prioridades. Está focada no objetivo principal [de dominar] Taiwan e não gastará energia militar com um país distante para brigar com os EUA. A China não precisa confrontar os americanos para ajudar o Irã, que é um parceiro marginal — como, aliás, quase todos os parceiros chineses são.
O único contexto em que é possível presumir maior agressividade chinesa é em caso de ameaça à Rússia. No caso da guerra da Ucrânia, como fica claro, uma intervenção chinesa dependeria de chance fatível de derrota russa; não sendo o caso, a ajuda é indireta, por meio do envio de equipamentos.
Qualquer possibilidade de reação da China dependeria, inicialmente, de sua consolidação como uma potência militar mais sólida, o que ainda não ocorreu. A principal métrica para isso é a dominação de Taiwan. Enquanto ela não ocorrer, a China não tem sequer domínio de sua região imediata, seu espaço de influência, o que é prioridade [militar] para qualquer nação.

Heni Ozi Cukier, especialista em geopolítica