Brasil

Guerra e paz

Depois de uma semana de atritos, PSL busca convergência política. O problema é que a trégua deve durar pouco tempo

O presidente eleito Jair Bolsonaro ainda nem assumiu e as brigas internas revelam uma face pouco amistosa de seus principais líderes. O clima de beligerância não poupou nem mesmo os filhos do presidente, que protagonizaram na semana passada intenso bate-boca entre colegas do PSL, partido que sustenta o novo governo. Veio à tona a troca de mensagens de um grupo de Whatsapp em que os principais líderes do partido são mencionados como “bebê mimado”, “louca do Congresso” ou um articulador “abaixo da linha da miséria”. Foi com esses adjetivos que os deputados do PSL Eduardo Bolsonaro, Joice Hasselmann e o senador Major Olímpio, todos de São Paulo, foram tratados respectivamente nas polêmicas mensagens. As discussões foram alimentadas pela disputa acirrada pela liderança do PSL no Congresso, onde a partir de fevereiro terão assento os 52 deputados e quatro senadores que o partido elegeu este ano, com pouco traquejo político. Aparentemente, a vaidade subiu às suas cabeças. A guerra verbal foi tamanha, que o próprio presidente eleito precisou intervir e exigir que os deputados selassem a paz. Assim, na terça-feira 11, os deputados Eduardo Bolsonaro e Joice Hasselmann, que se ofenderam mutuamente, ensaiaram um armistício e posaram para uma foto mimetizando um coração.

Eduardo x Joice

Em um grupo de Whatsapp, a deputada federal eleita Joice Hasselmann (PSL-SP) classificou o filho de Jair Bolsonaro, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), de “menino mimado”. Em resposta, Eduardo disse que Joice era “sonsa” e com “fama de louca”. A causa foi uma discussão sobre a liderança do PSL na Câmara, no ano que vem. “Joice, sua fama já não é das melhores. A continuar assim vai chegar com fama ainda maior de louca do Congresso”, disse Eduardo. “Não te dei liberdade pessoal nenhuma, portanto, ponha-se no seu lugar”, rebateu Joice. Na terça-feira 11, os dois fizeram as pazes e fizeram uma self, formando um coraçãozinho com as mãos

DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO

As conversas vazaram

O fogo amigo é fruto da renhida disputa pelo comando do partido na Câmara. Hoje, o partido é liderado por Major Olímpio. Como, porém, ele elegeu-se para o Senado, abriu-se uma lacuna a ser preenchida. Com uma desenvoltura que muitos consideraram excessiva, Joice Hasselmann correu para se apresentar como alternativa. E, nessa tarefa, não teve pruridos sequer de enfrentar o próprio filho do presidente, Eduardo Bolsonaro. A briga pelo comando do partido entre os deputados, apurou ISTOÉ, esboça-se há dois meses, mas ficou explícita depois que vazaram as conversas de Whatsapp. Em uma delas, a deputada classificou o filho de Bolsonaro como “bebê mimado”. Eduardo, rebateu, chamando a futura colega de dona de uma “fama de louca”.

A disputa por poder não se limitou aos deputados. Tem sido o calcanhar de Aquiles do novo governo. Há duas semanas, por exemplo, o futuro ministro da Secretaria- Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, iniciou uma guerra com o vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ), outro filho do presidente, pelo comando da comunicação institucional do governo. Carlos queria comandar a área. Perdeu a disputa para Bebbiano, que alertou que entregar um setor sensível do governo a um filho poderia caracterizar nepotismo. Carlos recolheu-se, mas não parou. Esta semana, foi anunciado que quem comandará o setor será o publicitário Floriano Barbosa. Indicação de Carlos. Como reação, Bebbiano retirou a comunicação do rol da sua secretaria e deixou-a sob o guarda-chuva da Secretaria de Governo, comandada pelo general Santos Cruz.

Os entrechoques atingiram também os futuros ministros Onyx Lorenzoni (Casa Civil) e Paulo Guedes (Economia), que se desentenderam por conta da reforma da Previdência. E o mal-estar chegou até mesmo à relação do presidente Jair Bolsonaro com Hamilton Mourão, seu vice. Mesmo subalterno na hierarquia militar, o capitão Bolsonaro deu uma reprimenda no general Mourão, dizendo que ele estava falando demais e que deveria adotar uma espécie de “lei do silêncio”. Mourão entendeu o recado e passou os últimos dias cuidando de sua mudança para o Palácio do Jaburu, onde deve morar a partir de janeiro.

O inusitado é que em um governo que promete adotar uma comunicação direta com a população, intensificando o uso das mídias sociais, incluindo aí os grupos de Whatsapp, desta vez não pode reclamar da mídia tradicional, como sempre faz. As divergências foram expostas exatamente por meio das mídias alternativas que o novo governo tanto preza.

Sergio LIMA / AFP; EVARISTO SA / AFP
Fátima Meira/Futura Press; © Leo Pinheiro/Valor/Agência O Globo

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