Cultura

A guerra dos spoilers

“Game of Thrones” espalhou mistérios e reviravoltas para se tornar a maior série da televisão de todos os tempos. Ela chega à penúltima temporada sem que nem mesmo os seus criadores saibam como a história irá acabar

Crédito: Divulgação

Emilia Clarke como a rainha Daenerys Targaryen e seu dragão (Crédito: Divulgação)


Incógnitas cercam a sétima temporada da série “Game of Thrones”, que estreia na noite de domingo, 16, na HBO. Será o primeiro de sete episódios semanais. O maior dos mistérios é como a história vai acabar – se é que vai. Isso porque nem o romancista que criou o enredo – o escritor norte-americano George R. R. Martin, de 68 anos – nem os criadores da superprodução televisiva – a dupla de acadêmicos e produtores David Benioff and D.B. Weiss, de 46 – ainda sabem o que irá acontecer. O gancho mais poderoso da série, a imprevisibilidade, tem se alastrado a ponto de virar chavão.

Há uma luta quase surda que ocorre tão logo os refletores são desligados, entre Martin e a dupla Benioff e Weiss. O escritor amarga um pânico criativo e não consegue concluir o sexto e sétimo romances da saga “Crônicas de Gelo e Fogo”, iniciada
em 1996, na qual a série televisiva se baseia. A situação é tão dramática que Martin “travou” em 2011, ano da estreia
da série. Neste ano saiu o romance “A Dança dos Dragões”. Desde então, Martin deconversa que tem sido perseguido e não tem sossego para continuar. Para manter o sucesso sem perda de conteúdo, Benioff e Weiss se apoderaram da história a partir da temporada de 2016, no ponto em que o enredo dos livros já não fornecia material para o roteiro da série – “A Dança dos Dragões” gerou o roteiro da quinta temporada. Preocupados com a falta de criatividade de Martin, eles passaram a se reunir para que revelasse “as linhas principais da trama”. “Game of Thrones“ consiste no caso raro em que a história é usurpada de seu criador, com a anuência dele. Hoje, para espanto do elenco, Benioff e Weiss agem como senhores absolutos do enredo.

Entre golpes de sorte e azar, “GOT”, como é conhecida, tornou-se a maior, mais cara, inovadora, sanguinária e erótica série da história da televisão. Desde a estreia, chama a atenção pela escala gigantesca. A equipe conta com milhares de pessoas, entre protagonistas, figurantes, câmeras e técnicos. As locações são variadas e suntuosas. O estúdio central
se localiza em Belfast, Irlanda, mas as filmagens são feitas também em geleiras da Islândia, colina da Croácia, desertos do Marrocos e praias de Malta – locais com nomes trocados, o que lhes dá ainda mais charme. Cada temporada custa em média US$ 80 milhões, o orçamento que tem estourado ano a ano, com o aumento da audiência em várias plataformas.

Compulsão

O que atrai os seguidores é a forma como a epopeia envereda pelo inimaginável, com viradas capazes de prender o espectador por um ano inteiro sem perder a curiosidade; ou vício. Há fãs que promovem maratonas para assisitr às temporadas

CRIADORES O escritor George R.R. Martin (acima) adia os dois romances finais. Os produtores David Benioff e D.B. Weiss assumem a história

em sequência. A série tornou universal tanto esse tipo de entretenimento compulsivo – o “binge watching” – como
o spoiler, a prática de revelar detalhes da trama, estragando o prazer de quem ainda não viu o episódio. Ao lado das batalhas e cenas de estupro e decapitação da série, trava-se pelas redes sociais a guerra dos spoilers. Os fãs especulam o destino dos personagens – uma galeria de excêntricos, como a rainha incestuosa Cersey Baratheon (Lena Headey), o anão Tyrion Lannister (Peter Dinklage), o bastardo Jon Snow (Kit Harrington) e a senhora dos dragões, Daenerys Targaryen (Emilia Clarke). Mesmo
quem evita o spoiler acaba sabendo de tudo.

O fantasma dos spoilers assombra até Martin. Ele tem sido assediado para concluir a heptalogia. “Tenho tido pesadelos com os personagens que me sussurram spoilers”, afirma. Prometeu para este ano o sexto romance, “Winds of Winter”, mas avisou que o trabalho anda “maciçamente atrasado”. “Há 20 anos eu venho prometendo que o inverno está chegando”, afirma. “O inverno é a época onde há muito frio e as coisas morrem, há escuridão e o gelo domina o mundo.

A tendência é de que a coisa vai piorar para muitos personagens”. Quem quiser saber o epílogo – que estará no romance a se intitular “A Dream of Spring”, a sair sabe-se lá quando – pode praticar “bind-watching” enquanto espera pela última temporada, em seis episódios, programada para estrear até 2019. Até lá, cabeças, hipóteses e spoilers vão rolar.

 


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