Internacional

A guerra de Trump

Ao ignorar aliados e anunciar a mudança da embaixada americana para Jerusalém — em um reconhecimento inédito da cidade sagrada como capital de Israel — o presidente dos EUA provoca a ira de palestinos, inviabiliza negociações de paz e coloca em risco os próprios cidadãos de seu país

Crédito: AFP photo / Hazem Bader

REAÇÃO Manifestantes palestinos atacam forças israelenses na Cisjordânia, na sexta-feira 8: dias de fúria contra os EUA (Crédito: AFP photo / Hazem Bader)

Dias de fúria como há tempos não se via no Oriente Médio. Desde a quinta-feira 7, conflitos entre palestinos e israelenses avançaram pelas ruas de Belém e Ramala, na Cisjordânia, deixando ao menos 50 pessoas feridas. Na sexta-feira 8, um palestino foi morto a pauladas. Dois foguetes foram disparados da Faixa de Gaza em direção a Israel, que reagiu com disparos efetuados por pelo menos um avião e um tanque de guerra. O movimento islâmico Hamas convocou uma “nova intifada” — a insurreição palestina contra a expansão territorial promovida pelo governo israelense — prevista para durar três dias, começando na sexta-feira 8. O grupo xiita Hezbollah anunciou uma onda de protestos no Líbano. Jerusalém entrou em estado de emergência. Houve marchas ruidosas também em países islâmicos como Malásia e Indonésia, ambos na Ásia. Foram essas as primeiras reações à irresponsável decisão de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel. Na quarta-feira 6, Trump determinou que o Departamento de Estado dos EUA inicie a transferência da embaixada americana de Tel Aviv para a cidade que judeus, cristãos e muçulmanos têm como sagrada — e que os palestinos reivindicam como sede de seu Estado próprio. O anúncio de Trump tem complicações políticas e religiosas de dimensão ainda incerta. É como se ele tivesse, deliberadamente, dado motivos para iniciar uma guerra na região. O difícil é entender suas motivações.

INIMIGO Foto de Trump é queimada em Belém: fim de uma solução de paz na região (Crédito:AFP PHOTO / Musa Al Shaer)

“Não está claro como isso ajuda a política americana no Oriente Médio e nem mesmo do ponto de vista doméstico”, diz Carlos Gustavo Poggio Teixeira, coordenador do curso de Relações Internacionais da PUC-SP. “Essa é mais uma das ações do presidente americano que servem para energizar a sua base política, sem muitos ganhos além disso”, afirma. Ainda que o Congresso dos Estados Unidos tenha aprovado o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel em 1955, a aplicação da lei vinha sendo adiada nas últimas décadas por motivos de segurança nacional. Em junho, Trump também preferiu adiar a aplicação da lei por mais seis meses. Na semana passada, decidiu agir: “Meu anúncio marca o começo de uma nova abordagem no conflito entre Israel e palestinos”, disse Trump.

“Beijo da morte”

BAIXA O palestino Mahmud al-Misri, morto por israelenses: volência pode sair de controle (Crédito:Ali Jadallah)

Do ponto de vista diplomático, a decisão do mais polêmico líder dos EUA já provoca desgaste. O líder do Hamas, Ismail Haniyeh, pediu para que países árabes e muçulmanos expulsem os embaixadores americanos. Várias autoridades, incluindo presidentes de países aliados dos EUA, como a França, o Egito e a Turquia, se manifestaram contrários à decisão. O Papa Francisco se pronunciou alertando para os conflitos violentos e o temor quanto ao futuro da região. “Não posso calar minha profunda preocupação com a situação criada nos últimos dias sobre Jerusalém. Faço um apelo desesperado para que todos se comprometam a respeitar o status quo da cidade, em conformidade às resoluções pertinentes das Nações Unidas”, afirmou o pontífice.

Uma consequência direta da determinação de Trump é tornar inviável a negociação de paz entre Palestina e Israel. “Tratar Jerusalém como capital de Israel manda a mensagem de que a maior potência do mundo endossa a conquista de território pela força e busca conferir legitimidade à ocupação israelense dos territórios também na Cisjordânia e na Faixa de Gaza”, afirmou à ISTOÉ Kai Michael Kenkel, professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio. O representante-chefe dos palestinos do Reino Unido, Manuel Hassassian, disse que a ação foi um “beijo da morte para a solução de dois Estados”. Até então, os EUA agiam como um mediador entre os dois países em busca de uma solução pacífica. Agora, a condição é outra. Para o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, Trump “escolheu violar todas as resoluções e acordos internacionais e bilaterais e contradizer o consenso internacional expressado por posições de vários países do mundo”.

A medida, tomada de forma isolada, e sem apoio de outras nações, revela mais uma forma de agradar seu eleitorado do que garantir a paz mundial. O presidente cumpriu a promessa feita durante a campanha de 2016 para satisfazer sua base pró-Israel de direita. Para o pesquisador Kenkel, contudo, a decisão pode colocar os americanos em risco, na mira de novos ataques terroristas, dentro e fora dos Estados Unidos. Uma prova disso pode estar na ameaça feita ainda na quarta-feira pelo líder do Hamas Ismail Haniyeh, para quem o povo palestino “sabe como responder adequadamente ao desrespeito de seus sentimentos e santuários”.

O Brasil na criação do estado de Israel

Bettmann
Em 1947, o diplomata brasileiro Osvaldo Aranha (1894-1960) presidiu a II Assembleia Geral das Nações Unidas, que sancionou o plano de partilha da Palestina, que previa a criação de duas nações independentes (uma árabe e outra judaica), além da internacionalização de Jerusalém sob o comando da ONU. Demonstrando talento para a articulação política, Osvaldo Aranha soube lidar com o regimento da ONU para ganhar tempo e garantir que 25 países votassem a favor da resolução (houve 13 votos contra, 17 abstenções e duas ausências). Os Estados Unidos e a União Soviética foram favoráveis. O resultado abriu caminho para a criação do Estado de Israel, proclamada em 1948 pelo líder sionista David Ben-Gurion, que exerceu o cargo de primeiro-ministro até 1963
RESPOSTA Em Gaza, palestinos queimam bandeiras de Israel (Crédito:Ezz al-Zanoun)

Solo sagrado

Na Guerra dos Seis Dias, em 1967, Israel tomou quase 6 mil quilômetros quadrados da Cisjordânia, de Jerusalém Oriental e mais de 20 aldeias ao leste, além das Colinas de Golã, da Síria, o Monte Sinai e Faixa de Gaza do Egito. Israel considera Jerusalém como sua capital “eterna e indivisível”, mas os palestinos reivindicam Jerusalém Oriental como capital de seu futuro Estado. Para os judeus, é a cidade fundada pelo rei Davi e é o local onde foi construído um templo para guardar a Arca da Aliança, onde se encontram as tábuas dos Dez Mandamentos. Já para os muçulmanos, é onde o profeta Maomé ascendeu aos céus. Para os cristãos, foi em Jerusalém que Jesus foi crucificado, morto e sepultado. É possível na Cidade Velha, peregrinar pelas 14 estações em que se acredita que Jesus passou carregando a cruz até a Igreja do Santo Sepulcro, assim como visitar a mesquita de Al-Asqa, ver a Cúpula da Rocha e depositar votos de fé no Muro das Lamentações, que é parte do Templo de Jerusalém erguido pelo rei Herodes. Para o Ismail Haniyeh, do Hamas, a decisão de Trump “não mudará os fatos da história e da geografia”, mas ele alerta que o presidente dos EUA abriu “os portões do inferno para os interesses americanos na região”.