Brasil

A guerra de Temer

Sem conseguir aprovar a reforma da Previdência, o presidente altera a geografia do poder em Brasília e arrisca sua derradeira cartada política

Crédito: Alan Marques

NOVA ORDEM Pouco afeito a movimentos bruscos, Temer promove uma reviravolta no governo (Crédito: Alan Marques)

Como um aparelho de monitoramento cardíaco, o governo Michel Temer passou um ano e seis meses medindo o pulso dos próprios aliados. Ao menor sinal de alteração nos batimentos, atuou de maneira cirúrgica. Mesmo criticado em seu partido, ávido por mais espaço, cedeu ministérios importantes, como o da Saúde e das Cidades, para fidelizar PP e PSDB. Manteve ministros que pouco – ou nada – acrescentaram, como Luislinda Valois (Direitos Humanos). Aguentou o desgaste de sustentar por meses a obsessão do mandachuva do PTB Roberto Jefferson em nomear a filha, Cristiane Brasil, ministra do Trabalho, mesmo condenada por desrespeito à legislação trabalhista e protagonista de um vídeo constrangedor dentro de uma lancha cercada de amigos seminus. Todo esse sacrifício por um motivo: continuar ditando o ritmo no Congresso para aprovar a agenda de reformas que propunha como solução para o País. As reformas eram o coração do governo. Delas dependia o funcionamento de todo o resto. Sem obter os votos para aprovar as alterações na Previdência, apesar de tudo o que cedeu e barganhou, Temer resolveu jogar sua derradeira cartada, como se arriscasse um cavalo de pau no sistema circulatório do governo: apostou na intervenção no Rio como forma de dar um basta à escalada de violência e criminalidade no Estado.

É um risco calculado. Pesquisas de opinião as quais o governo dispõe já apontavam a segurança como o tema de maior preocupação da sociedade. E os diversos pedidos de ajuda de governadores, no processo que já se desenrola há algum tempo, batizado de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), mostravam a incapacidade dos estados, endividados e em crise, de solucionar o problema sem ajuda federal. Se obtiver êxito na mais nova empreitada, Temer volta a ser um player importante no jogo eleitoral, com chances mesmo de entrar para valer na embolada disputa eleitoral, que fica ainda mais imprevisível diante da certeza de que Lula, condenado pelo TRF-4, não poderá concorrer. Se der errado, avaliam os estrategistas do Planalto, Temer que já amarga índices baixos de popularidade perderá, mas pouco.

Para não deixar escapar a confiança do setor econômico, Temer apresentou um pacote com 15 tópicos para injetar ânimo na economia. Foi o suficiente para que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), voltasse praticar seu esporte predileto, o oportunismo. Maia é candidato à sucessão de Temer. Assim, ao perceber o presidente no páreo, começou a enxergar nele um adversário. Primeiro, ficou contrariado, uma vez que é do Rio de Janeiro, por não ter sido previamente consultado sobre a intervenção. O pacote foi avaliado por ele como uma afronta: Temer queria definir a pauta do Legislativo, cuja prerrogativa é sua. “Cheira a café velho e frio”, estrilou o democrata.

O Fla-Flu político foi esvaziado e desnorteou o PT, acostumado ao discurso do “nós contra eles”

Tal posicionamento é reflexo também do início do jogo eleitoral e sobre as dúvidas que existem no DEM e dentro do próprio MDB sobre as chances de Temer. Na quarta-feira 21, o partido fez uma reunião para tratar das chances do presidente após a intervenção. O secretário de Governo, Carlos Marun, era um entusiasmado cabo eleitoral de Temer na reunião. O líder do governo no Senado, Romero Jucá (RR), pediu moderação. “Ainda é cedo”, comentou. E lançou na roda uma outra alternativa para o partido: o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que poderia deixar o PSD para se filiar ao MDB.

Lista de realizações

Do ponto de vista do cálculo político, os temores dos que torcem contra o governo fazem sentido. Livre das pressões do mercado e do Congresso, Temer dependerá apenas de seus resultados para sonhar com a volta ao Planalto. Dessa vez, por vontade popular. Na pior da hipóteses, como candidato do maior partido, terá o maior tempo de TV, que poderá usar para defender seu governo e suas realizações. Suas últimas movimentações reforçam a ideia de que caminha nesse sentido. Ele pediu aos ministros que listassem suas realizações nesse um ano e meio de governo. Vale tudo: inaugurações de obras, anúncio de balanço positivo, desde que sirvam para que ele lucre com as ações. O mais recente gesto de Temer nesse sentido foi a divulgação de campanha publicitária sobre a intervenção no Rio, cujo slogan é: “Vai tirar o Rio de Janeiro das mãos da violência”.

Outra razão da reação forte de Rodrigo Maia possui uma vistosa cabeleira branca. Durante o carnaval, o País acompanhou estarrecido as imagens de arrastões, assaltos à luz do dia e à vista de todos, além das mortes de policiais no Rio de Janeiro. Moreira Franco, ministro da Secretaria-Geral da Presidência, sentiu que estava ali a deixa para decretar a intervenção. Primeiro, convenceu o próprio presidente Temer. Depois, recebeu a missão de convencer pessoalmente o governador do Rio, Luís Fernando Pezão, a aceitar a ajuda federal. A intervenção é para Pezão uma confissão de incompetência pessoal. Mas Moreira convenceu-o de que não havia alternativa. O Rio não tinha mais condições econômicas e estruturais para cuidar da segurança. Sucumbiria no caos se resistisse.  Moreira não ganhou nem perdeu, mas potencialmente pode crescer com a mudança. Além de artífice da decisão, ele é do Rio de Janeiro. Já governou o estado. Lucra muito se estiver diretamente vinculado a soluções na área de segurança no território fluminense. E, se ele ganha, perde Rodrigo Maia, que também é do Rio de Janeiro. E seu pai, César Maia, que cogita disputar o governo fluminense pelo DEM.

Tom moderado

Outro ponto importante da estratégia traçada por Temer com a intervenção é que seus adversários poderão até ser contrários à solução proposta. Só não poderão torcer muito pelo seu fracasso, porque isso seria torcer a favor da criminalidade. Ou seja, o tema foi despolitizado, como há muito não se via na acalorada arena política. O Fla-Flu saiu da agenda e o PT ficou emparedado, sem conseguir dividir a sociedade no já surrado nós contra eles. Essa avaliação, inclusive, foi feita pela própria bancada do PT no Senado, na segunda-feira 19. Ali, ficou a recomendação de que os senadores deveriam criticar a medida, e votar contra ela. Mas deviam moderar seus discursos, diante da sensação de que ela já nascia popular. Representantes da oposição no Conselho da República, o senador Humberto Costa (PT-PE) e o deputado José Guimarães (PT-CE), já seguiram ali o tom moderado.

Além de alterar a bússola da oposição, a jogada de Temer em favor do combate à violência mexeu na geografia do poder em Brasília. Ganham força as áreas diretamente relacionadas à segurança – destaque para o ministro da Defesa, Raul Jungmann. Ele já havia substituído o ministro da Justiça, Torquato Jardim, como o porta-voz do governo no setor desde as declarações sobre a contaminação do governo do Rio com o crime. As Forças Armadas terão participação mais efetiva nas ações de segurança, e é Jungmann o comandante dessas ações.

Também ascendem no QG de Temer Sérgio Etchegoyen, Ministro-Chefe do Gabinete de Segurança Institucional, e Torquato Jardim, da Justiça. Em contrapartida, perdem força os ministros cuja tarefa era justamente fazer o toma-lá-dá-cá com o Congresso: Carlos Marun, e o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha. No Parlamento, sobem Laura Carneiro e descem Rodrigo Maia, Eunício Oliveira, Beto Mansur e Roberto Jefferson. No círculo dos conselheiros, quem se cacifa é Luiz Antônio Fleury, que chegou a ser cotado para o Ministério da Segurança Pública, pela experiência na área, e o ministro do STF, Alexandre de Moraes. A criação do Ministério da Segurança esbarra agora na escolha do nome do ministro. Temer ainda não tem esse nome.

Só tem definido quem não será: José Maria Beltrame. Seria, avalia o presidente, um contrassenso fazer intervenção federal no Rio por colapso da segurança e colocar no Ministério da Segurança justamente alguém que muito recentemente foi secretário da área no Rio e, portanto, um dos eventuais responsáveis por esse colapso.

De qualquer forma, o governo está convicto de que demonstrações de melhora acontecerão, independentemente de quem seja o escolhido para pilotar a área. Até porque o Rio já não tinha mais qualquer capacidade de lidar com a segurança. Assim, qualquer ação efetiva já dará ao cidadão fluminense uma sensação de maior segurança. Desde que, porém, um tiroteio, um erro tático ou uma precipitação não venham a fazer vítimas inocentes. Na quarta temporada da série House of Cards, o presidente dos EUA Francis Underwood planeja uma forma de virar o jogo, enquanto sua popularidade desabava. A solução encontrada foi declarar uma guerra. Temer faz da intervenção no Rio sua guerra particular. Se vencê-la, a sociedade ganhará junto.

Inflexão no discurso

FORA DE FORMA Bolsonaro (de branco) faz flexão de braço ao lado de militares, mas quem flexionou foi sua retórica (Crédito:Divulgação)
O deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) já exibiu melhor forma política.  Nos últimos tempos, vetores do seu discurso esvaíram ralo abaixo. A primeira a escorrer pela fresta foi a retórica anti-Lula. Com o ex-presidente fora do páreo eleitoral, o ex-capitão do Exército perdeu o principal oponente, contra o qual lançava repetidas diatribes. Semana passada, o parlamentar experimentou a mais importante desventura desde que se apresentou como candidato à Presidência. O presidente Michel Temer fincou bandeira numa área em que Bolsonaro imaginava ter monopólio: a da Segurança Pública.
Desde que o presidente anunciou a intervenção no Rio de Janeiro, Bolsonaro passou todos os recibos de sua contrariedade. No primeiro momento, posicionou-se contra a medida. Ao perceber que a postura seria um total contrassenso, acabou por votar a favor da intervenção – embora com ressalvas. Depois de ceder terreno ao inimigo, mordeu a isca em entrevista: “O meu discurso Temer não vai roubar”. A ver.

Obstáculo

DE NOVO ELE O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, perde terreno e critica o governo (Crédito:Evaristo Sa)
Impedido de enviar PECs ao Congresso enquanto durar a intervenção no Rio, o governo perdeu a reforma da Previdência, seu principal carro-chefe. Como compensação, apresentou uma agenda com 15 pontos para animar o mercado. Das propostas, a autonomia que se pretende dar ao BC é a que mais agrada os investidores. Outro tópico com potencial para injetar ânimo à economia é o marco legal de licitações e contratos. Dessa forma, apesar das alterações na geografia do poder, a partir do anúncio da intervenção federal no Rio, o governo mantém em alta o time que está ganhando, e no qual não se mexe: o da economia.
O problema será convencer o Congresso da importância das novas medidas. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), qualificou-as como “café frio e velho”, como se tivesse algo de novo a apresentar. Não tinha. De fato, a agenda de prioridades é composta de projetos que já estavam em tramitação. Alguns não tão velhos assim, como a privatização da Eletrobras. A vida ensina, no entanto, que requentar nem sempre é ruim. Há quem diga que a feijoada do dia seguinte apura melhor o sabor.

 

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