Guerra de narrativas

Só quem lida com ideias sabe como é bom acabar de ler um livro e dizer: “muito bom! Mais que bom: excelente! Realmente excelente”. Ao publicar Guerra de Narrativas, do sociólogo e jornalista Luciano Trigo, a Editora Globo acaba de nos proporcionar uma experiência desse tipo. Escrevendo com elegância e simplicidade, o autor analisa com precisão cirúrgica a divisão que vem ocorrendo no Brasil. Cada vez mais, somos um País dividido em dois lados, em duas culturas, e, mais ainda, em duas linguagens que se contrapõem com o mesmo desprezo pelos fatos. Já no título do primeiro capítulo, Trigo expõe o cerne de tal processo: “é possível contar um monte de mentiras, dizendo só a verdade”. Isso, infelizmente, é o que parece estar acontecendo no Brasil, numa escala dramática.

Uma de suas epígrafes, da lavra de Rui Barbosa, toca direto na ferida: “A degeneração de um povo, de uma nação ou raça, começa pelo desvirtuamento da própria língua”. Sabemos todos que nenhum país é homogêneo. Todos se compõem de grupos sociais ou políticos com interesses contrapostos, descabendo imaginar um, onde todos os cidadãos percebam as questões públicas exatamente do mesmo modo. Mas é uma questão de grau. Sem um fundo comum de normas e valores que de alguma forma balize a linguagem — quero dizer, a variação de significados —, não vejo como um país possa se desenvolver e proporcionar um mínimo de felicidade a seus filhos.

Vale a pena lembrar aqui as três grandes fases do marxismo. Primeiro, Marx e Engels, proclamando com a mais absoluta sinceridade a crença de terem elaborado uma teoria científica da sociedade e da história. Em seguida, Lenin e Stalin, que tudo fizeram para transformar as ideias em armas poderosas no arsenal revolucionário. Mas isso ainda era pouco. O projeto intelectual de Gramsci foi demonstrar que o comunismo não precisa se aferrar à noção de um campo de batalha objetivo. O que interessa é a conquista do imaginário social, ou seja, dos conceitos de que nos valemos para interpretar a sociedade em que vivemos e das percepções com que nos orientamos na vida cotidiana. Detendo a hegemonia no campo das ideias, restaria apenas a tarefa de disseminar a nova narrativa entre todas as camadas sociais e instituições, começando, naturalmente, pelo
sistema educacional.

Só quem lida com ideias sabe como é bom acabar de ler um livro e dizer: “muito bom! Mais que bom: excelente! Realmente excelente”. Uma de suas epígrafes, da lavra de Rui Barbosa, toca direto na ferida:  “A degeneração de um povo, de uma nação ou raça, começa pelo desvirtuamento da própria língua”


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