"Gritavam 'vou te matar, deita no chão'", diz ex-metalúrgico preso enquanto trabalhava. Forçado a deixar tudo para trás e só com o passaporte nas mãos, ele agora tenta se readaptar ao Brasil.Ricardo Alves foi preso por agentes americanos enquanto trabalhava em uma obra. Segundo ele, teve o pé machucado na abordagem e passou uma semana detido. Tudo que juntou em 21 anos nos Estados Unidos ficou para trás, e ele chegou ao Brasil apenas com o passaporte. Agora, tenta conseguir trabalho para recomeçar.
De dentro do avião que partiu em 7 outubro de Massachusetts, nos Estados Unidos, em direção à Confins (MG), Ricardo Alves, 48 anos, só pensava na vida que deixava para trás. "Pensava na minha pick-up estacionada em frente ao meu apartamento, todo mobiliado. As minhas mercadorias que revendia para pagar as contas." O patrimônio, construído ao longo de duas décadas, está agora inacessível.
Alves era um dos 84 passageiros do voo que transportava brasileiros deportados de volta ao país, na 25ª operação de repatriação desde janeiro deste ano. Encarar o futuro que o aguardava pela janela da aeronave era um misto de incerteza e alívio.
"É recomeçar totalmente do zero, que ainda não sei como vai ser, uma página nova que ainda vou escrever", afirma. "Eu tenho que aqui vai ser muito mais difícil do que lá. Não vou ter a mesma remuneração, mas pelo menos vou ter apoio, estou na minha terra, ninguém vai me caçar como um rato ."
"Foi uma coisa sinistra"
Alves foi preso pelos agentes do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE, na sigla em inglês) oito dias antes da deportação. Ele diz que na ocasião estava trabalhando na reforma de uma casa em Milford, em Massachusetts.
"Foi por volta das 10h30 que chegaram uns dez carros com homens mascarados, que apontaram as armas para nós. Aí já sabia o que estava se passando. Corri para dentro da casa e fomos cercados, e atiraram com tasers. Gritavam 'vou te matar, deita no chão', foi uma coisa sinistra", recorda.
"Não tem mais lei 'anymore'", lamenta Alves. Depois disso, ele diz que foi algemado e que os agentes pisaram no tornozelo dele. Com o estrago, mesmo preso, foi levado ao hospital. "Meu pé parecia de elefante." Em seguida, foi detido na prisão de Plymouth, que tem uma seção para reter imigrantes presos pelo ICE.
Além disso, Alves teve os documentos confiscados, o que dificulta a adaptação de volta ao Brasil.
"Eles tiraram minha carteira de motorista, vou ter de começar tudo de novo, tirar uma habilitação brasileira. Sem isso, não tenho a oportunidade de dirigir aqui ou transferir o documento. Se tivesse condições, podia trabalhar de entregador ou motorista, alguma coisa."
Deportações em alta
Assim como Alves, 72,1% dos repatriados pretendem voltar a trabalhar no Brasil. Outros 19,57% querem estudar e trabalhar. De cada quatro deportados, três foram para a casa de parentes ou amigos ao desembarcarem. Os dados são do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, que, desde janeiro, quando as deportações em massa aumentaram, passou a acompanhar as chegadas.
Em janeiro, depois de brasileiros denunciarem terem sido algemados por forças norte-americanas em voos de deportados para o Brasil, o governo federal lançou a Operação "Aqui é Brasil", para conduzir os expatriados que chegavam ao país aos estados onde teriam apoio e para evitar os maus-tratos . O investimento nas ações é de R$ 15 milhões até o fim do ano.
A tendência de queda nas deportações de brasileiros dos EUA, observada desde 2021, se reverteu com a volta de Donald Trump à Casa Branca em janeiro deste ano.
"Eu não podia mais sair de casa para trabalhar , tinha que ficar em casa revendendo as peças de videogame que consertava pelo eBay", lembra Alves. "Teve muito preconceito com a volta do Trump. Em vez de os imigrantes serem chamados de indocumentados, passaram a ser ilegais."
No início da nova administração, Trump prometeu combater a imigração ilegal. Em anúncio oficial, a Casa Branca alegou que o fluxo representava uma ameaça à segurança nacional e econômica dos EUA. Com isso, foram deflagradas "operações de retirada" para identificação, detenção e remoção de imigrantes.
Até agora, 2,1 mil brasileiros retornaram ao país como deportados – alta de 16,6% em relação ao ano anterior.
Sonho de uma vida melhor
A busca por melhores condições de vida motivou Alves, natural de São Bernardo do Campo (SP), a abandonar o emprego de metalúrgico em uma fábrica em Diadema para se mudar para os EUA. Em 2004, aos 27 anos, ele foi seduzido pelo discurso de um primo que já morava no país e dizia ter prosperado.
O parente prometeu intermediar a viagem de Alves. Para isso, o metalúrgico teria de pagar 7 mil dólares. O dinheiro foi usado para pagar os coiotes (traficantes de pessoas) que levaram Alves até a fronteira com o México, no esquema conhecido como "cai-cai".
"Vendi tudo que eu tinha e dei para o meu primo", diz. "Foi praticamente uma loucura, colocar a vida na mão de quem não conhece, mas foi tudo pela remuneração. Na metalúrgica, o pagamento não era suficiente para pagar a pensão para minha filha e tocar a vida."
Ao ser capturado pelas autoridades americanas, Alves deveria se apresentar a uma corte que julgaria se ele seria ou não deportado, mas ele nunca compareceu.
Depois que se instalou nos EUA, ouviu do primo que o custo da travessia tinha sido na verdade de 11 mil dólares, e que teria de quitar a dívida logo no início da jornada.
"Claro que eu não falava inglês, só arranhava algumas palavras, 'água', 'fome', coisas assim. Cheguei para trabalhar como burro de carga, como ajudante na construção em Nova Jersey, dormia no chão."
Ele precisou juntar dinheiro por 11 meses para quitar o débito com o primo. "Depois fiquei sabendo que ele pagou 2 mil dólares para os coiotes e embolsou o resto. Não juntei nada nesse tempo."
Salto de carreira
Alves diz que depois de quitar a dívida conseguiu prosperar em um emprego de carpinteiro. "Eu prosperei no sentido de que levava uma vida digna, andava limpinho, tinha uma vida social, trabalhava o suficiente para pagar aluguel, seguro de carro, gasolina para dirigir, comer."
Com a convivência com outros imigrantes, Alves não só ascendeu na carreira e conseguiu vagas melhor remuneradas, como constituiu um círculo social e aprendeu inglês e espanhol.
"Fiz amigos, não só brasileiros, mas americanos e de toda a América Latina. Socializávamos fora do trabalho. São essas coisas que prendem a gente lá, faz com que a gente se sinta um pouco em casa", relata. "Eu queria uma situação monetária melhor, e isso eu consegui. Trabalhava para pagar minhas contas e mandar uma ajuda para o Brasil."
Futuro no Brasil
Agora, sem emprego, conta com a ajuda de parentes. Ao desembarcar, foi para a casa da mãe em Ipatinga (MG), mas pensa em se mudar para a casa do irmão em São Paulo. As condições parecem aquelas de quando deixou o Brasil há 21 anos, quando vivia na casa dos pais.
"É como se fosse o primeiro dia de escola, que a gente chega sem saber nada. Penso em evitar todo mundo, me esconder, porque não tenho resposta para a pergunta de 'como vai ser'. O negócio é arrumar um trabalho o mais rápido possível, não vou aceitar um centavo de ninguém", diz.