Internacional

Greta quer salvar o futuro

Conheça a adolescente sueca autista que lidera os protestos estudantis na Europa contra o aquecimento global. Sua mensagem de esperança e justiça já foi ouvida pelo papa Francisco, ONU e Fórum Econômico Mundial

Crédito: HANNA FRANZEN

“GREVE ESCOLAR PELO CLIMA” Decidida a fazer algo “de bom”, Greta Thunberg começou com um protesto silencioso em agosto (Crédito: HANNA FRANZEN)

É fácil acreditar que ela deveria estar na aula como qualquer adolescente de 16 anos. É cômodo reduzir suas intenções às angústias da idade, mas sua mensagem e sua figura frágil conferem um caráter de urgência, legitimidade e clareza de propósitos que desmontam as críticas polarizantes que poluem os debates sobre aquecimento global. Nenhum negacionista dos problemas climáticos ganharia um debate contra uma garota portadora de síndrome de Asperger (um tipo leve de autismo), que aparenta menos idade que tem e nada mais fez até há pouco do que ficar sentada em silêncio diante do Rksdag, o prédio do parlamento sueco.

Elevada à condição de estrela ambiental após simbolizar os protestos de 15 de março contra a falta de iniciativas efetivas dos governos para minimizar os efeitos do aquecimento global, Greta Thunberg diz que apenas chegou na hora certa. Desde 20 de agosto do ano passado ela deixou de ir às aulas às sextas-feiras em nome das #FridaysForFuture, hashtag de protesto que ganhou peso nas redes sociais e acabou nas ruas de capitais ao redor do mundo. De saída, ela queria apenas que o governo sueco cumprisse com urgência os itens do Acordo de Paris sobre o clima. “Pensamos que ela ficaria um pouco e voltaria para casa almoçar”, afirmou seu pai Svante Thunberg, que discretamente a acompanha.

Direitos civis

Nem por isso o discurso de Greta é infantil. Pode ser utópico para os mais acomodados e pragmáticos. “Somos só crianças que protestam. Não deveríamos estar fazendo isso, não deveríamos ter que fazer, sentir que nosso futuro está ameaçado a ponto de termos que faltar às aulas para lutar. É um fracasso das gerações anteriores”, diz, chutando educadamente quem toma as decisões políticas.

A preocupação com a crise ambiental surgiu aos 11 anos, quando conheceu a questão a escola. O fato de ser portadora de síndrome de Asperger potencializou uma depressão que a fragilizou. O transtorno afeta a capacidade de interação social. Greta parou de falar e ficou quase dois meses sem comer, quando perdeu 10 quilos. Cinco anos depois, aparenta ter menos idade e seu aspecto é frágil. “Não falo mais que o necessário”, diz. Nada mau para quem levou pessoalmente seu recado para milhares de estudantes em Paris, Bruxelas e Hamburgo, falou com o papa Francisco e aos integrantes dos parlamentos europeu, britânico, do fórum de Davos e das Nações Unidas.

PALESTRA Timidez vencida para encarar os líderes do Parlamento Europeu: “Não falo mais que o necessário” (Crédito:Jean-Francois Badias)

“Sou uma garota que diz que outras pessoas estão roubando meu futuro e o de outros.” Greta Thunberg, ativista ambiental de 16 anos

A maior inspiração de Greta é Rosa Parks, que quando menina foi símbolo do movimento dos direitos civis dos afro-americanos, nos anos 50 e 60. “Ela era introvertida como eu”, declarou à revista Rolling Stone. Além do paralelo direto, há um aspecto subjetivo no comentário que encontra eco entre os demais jovens. Greta e sua geração não querem apenas ser ouvidos. Desde já eles querem começar a apontar os caminhos. Reduzir e enfrentar os efeitos do aquecimento global é apenas uma de suas bandeiras. Novas virão.

Colaborou Guilherme Sette