China e EUA disputam governança de IA; veja o cenário global

Iniciativas Pax Silica e Waico revelam duas visões de controle tecnológico e geopolítico em ascensão

China e EUA disputam governança de IA; veja o cenário global

Em um cenário de crescente tensão geopolítica, China e Estados Unidos (EUA) travam uma disputa pela governança da Inteligência Artificial (IA), com o lançamento de iniciativas concorrentes que visam moldar o futuro dessa tecnologia. As ações de ambos os países possuem implicações profundas nas cadeias produtivas globais e no desenvolvimento econômico e social, refletindo uma corrida para estabelecer a hegemonia tecnológica.

O que aconteceu

  • A disputa pela governança de IA opõe China e EUA, com cada um propondo modelos distintos para o controle e desenvolvimento da tecnologia.
  • Os EUA promovem a Pax Silica, uma iniciativa restrita a “parceiros confiáveis” para controle de cadeias de suprimento e coordenação econômica.
  • A China, por sua vez, lança a Waico, uma organização aberta a todas as nações, defendendo o código aberto e a soberania digital para o Sul Global.

A estratégia dos EUA: Pax Silica e “parceiros confiáveis”

A iniciativa dos EUA aposta em criar um sistema com “parceiros confiáveis” para controlar cadeias de suprimento de IA de semicondutores, minerais críticos e energia. Já a proposta liderada por Pequim convoca todas as nações para participar da governança da IA por meio de sistemas de códigos abertos, que permite a apropriação da tecnologia por qualquer empresa ou organização.

O governo brasileiro tem afirmado que o país não pode ficar dependente de nenhum modelo, seja chinês ou ocidental, defendendo o diálogo com todas as iniciativas que possibilite alcançar uma soberania digital brasileira, em um contexto onde eventos como o Brasil-China em Brasília já projetam investimentos verdes e inovação tecnológica.

O governo de Donald Trump, que já assinou ordem para dar ao governo acesso a modelos poderosos de IA e boicota iniciativas multilaterais para estabelecer regras sobre IA nas Nações Unidas (ONU), lançou, em dezembro de 2025, a Pax Silica. Inicialmente, fizeram parte da iniciativa Japão, Israel, Reino Unido, Emirados Árabes Unidos (EAU), Singapura, Países Baixos (Holanda), Singapura e Austrália.

Atualmente, a iniciativa é formada por 23 países e a União Europeia. Em junho deste ano, ingressaram na parceria os países latino-americanos Argentina, El Salvador, Chile, Costa Rica e Panamá. Também compõem o grupo Índia, Catar e Filipinas.

A Pax Silica busca coordenar, entre países alinhados à Casa Branca, “uma ordem econômica duradoura que sustente uma era de prosperidade impulsionada pela IA em todos os países parceiros”.

Entre os objetivos, está o de garantir a “segurança” no acesso aos insumos e matérias-primas de tecnologia, além de “abordar vulnerabilidades” dessa cadeia produtiva e “explorar investimentos conjuntos”.

Qual o risco da dependência tecnológica para os países?

O especialista em governança de IA Ettore Arpini, fundador da organização Plures, que apoia a formação de profissionais para atuação em IA, destacou à Agência Brasil que a iniciativa dos EUA favorece poucos países aliados, “deixando o restante do mundo a ver navios”.

Segundo Arpini, esse modelo traz riscos para empresas e países que dependam de determinada IA estrangeira para seus negócios, cenário que já gerou tensões como quando uma startup de IA processou o governo dos EUA após pressão do Pentágono.

“Digamos que o carro-chefe da economia de um país dependa do modelo de IA do Chat GPT, por exemplo. Pode ser que, de uma hora para outra, uma decisão de Washington bloqueie o acesso a essa IA. Isso pode congelar a economia inteira do país, que fica totalmente dependente e nas mãos, nesse caso, dos EUA ou dessas poucas big techs”, explicou.

Pax Silica, iniciativa dos EUA com países aliados na área de inteligência artificial. Foto: Divulgação – Divulgação

China e a Waico: código aberto e alinhamento global

Por outro lado, a China apostou, para uma governança internacional da tecnologia, no lançamento da Organização Mundial de Cooperação em IA (Waico), criada em julho deste ano, com sede em Xangai. A Waico é aberta para todos os países e assinada por 29 nações, incluindo o Brasil.

Também assinaram a declaração a Rússia, Indonésia, Cazaquistão, África do Sul, Quênia, Etiópia, Moçambique, Venezuela, Cuba, Omã, Paquistão, entre outros.

A declaração de criação da Waico defende o desenvolvimento da IA de código aberto, ou seja, que permite o uso livre da tecnologia por terceiros, sem necessidade de manter um contrato pago, como ocorre com as bigtechs dos EUA como OpenIA, dona do Chat GPT, Anthropic, dona do Claude, ou Google, dono do Gemini.

Cerimônia de lançamento da Waico, em Xangai – Divulgação

Uma IA de código aberto permite que a tecnologia seja examinada, estudada, modificada e redistribuída por qualquer pessoa ou organização, usando o software em servidor próprio, sem precisar enviar informações a terceiros.

Por outro lado, a IA com código fechado, de propriedade de uma empresa, pode ser usada apenas mediante autorização do proprietário da tecnologia, geralmente por meio do pagamento de algum valor. Nesses casos, o preço pode ser alterado ou o acesso a tecnologia cortado de uma hora para outra.

O professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), Sérgio Amadeu da Silveira, especialista em tecnologia e sociedade, aponta que iniciativa da China pode trazer ganhos para países que não desenvolveram ainda uma IA de ponta.

Por outro lado, Silveira pondera que os demais países, como o Brasil, precisam desenvolver a própria infraestrutura local para processar a IA e poder se beneficiar da iniciativa chinesa.

“Se a gente não desenvolver capacidades aqui dentro e, principalmente, infraestruturas nossas, a gente não vai conseguir nem se apropriar do conhecimento [disponibilizado pela China via IA com código aberto]”, comentou.

Interesses geopolíticos e comerciais no Sul Global

A declaração oficial da Waico destaca que a governança global da IA deve ser promovida por todos com objetivo de “reduzir e eliminar barreiras técnicas” e orientada ao desenvolvimento sustentável.

“O Sul Global deve desenvolver tecnologia e serviços de IA com base em suas próprias condições nacionais, ajudando o Sul Global a realmente entrar em contato e aplicar a inteligência artificial e a promover o desenvolvimento inclusivo”, diz o documento.

No discurso de lançamento, o presidente da China Xi Jinping mandou recados indiretos aos EUA, destacando que a “segurança nacional” de um país não pode ser alcançada em detrimento da segurança dos outros países.

“O desenvolvimento da IA não deve ser uma atuação solo de um único país, mas sim uma sinfonia de cooperação global”, afirmou Xi.

Para o especialista em IA Ettore Arpini, a iniciativa chinesa vai na contramão da lógica desenvolvida pelos EUA.

“Em vez de concentrar o acesso em quem é já é aliado confiável, o posicionamento da China é de abrir os modelos, acumular aliados e fazer uma governança global com todos os países que quiserem participar. Tudo isso alegando que essa é uma tecnologia transformadora e que precisaria ser entendida como um bem comum”, disse.

Os especialistas Arpini e Amadeu destacaram que o interesse da China, com a Waico, é também comercial, para além de uma influência geopolítica. Isso porque a China pode ganhar por meio da oferta de infraestrutura para os países que venham a adotar a IA de código aberto em desenvolvimento no país asiático.

“O Brasil tem que pagar uma assinatura para rodar o Chat GPT. Com a iniciativa Waico, a gente pode rodar um modelo local, aberto, desenvolvido na China. Para Pequim, será interessante a partir do momento que a gente use infraestrutura e chips que a China proveria, e não os EUA”, explicou Ettore Arpini.

Brasília – 31/07/2026 – Iniciativas da China (Waico) e dos EUA (Pax Silica) para governança da IA. Arte. Foto: governança da IA – Governança da IA