Ediçao Da Semana

Nº 2742 - 12/08/22 Leia mais

Não é segredo para ninguém que Walter Casagrande e Sócrates tinham uma grande amizade, chamado de amor pelo próprio comentarista. O ex-atacante fez questão de abrir seu livro “Casagrande e Sócrates – uma História de Amor” com uma conversa imaginária com o seu companheiro de áureos tempos do Corinthians. Mas nem sempre os dois guardaram uma boa relação, e a amizade teve altos e baixos.

Uma alfinetada de Sócrates em Casagrande durante um encontro entre os dois em um restaurante em São Paulo azedou a amizade e causou um afastamento que durou muitos anos, e criou muitas mágoas. Casagrande tinha começado há pouco tempo seu trabalho como comentarista na Globo. Sócrates o procurou após saber que a emissora buscava um segundo nome para participar das transmissões em São Paulo.

“Tempos depois, Casagrande estava no prédio da TV Globo quando recebeu uma ligação de Sócrates no celular. ‘Oi, Big, tudo bem? Fiquei sabendo que a Globo está querendo mais um comentarista em São Paulo. Só tem você aí… Dá uma sondada, vê se interessa eu ser comentarista também’, disse o Doutor. A contratação de Sócrates pela emissora não se concretizaria, e isso daria margem ao rompimento”, conta trecho do livro, que também é assinado pelo jornalista Gilvan Ribeiro.

Tempos depois, Casagrande e Sócrates se encontraram em um restaurante em São Paulo e o ex-meia soltou algumas palavras que soaram muito mal para Casão. O antigo comentarista da Globo não gostou de ser chamado de “vendido para o sistema” e decidiu encerrar por ali o vínculo que guardava com Sócrates.

“Naquela mesma semana, três ou quatro dias depois, eu fui ao restaurante Lellis para entrevistar um convidado para a coluna que tinha no Estadão. E encontrei lá o Sócrates, numa mesa com o (José) Trajano, o Juca Kfouri e outros jornalistas. Eu me aproximei para cumprimentá-los e aí, na frente de uma porrada de gente, ele falou: ‘Taí o cara que se vendeu para a TV Globo’. Eu fiquei muito puto”, explicou Casagrande em seu livro.

Antes da morte do amigo, em 2011, Casagrande se reaproximou de Sócrates. Mesmo assim, o ex-atacante não conseguiu falar tudo o que queria para o companheiro e explica a origem da ideia de iniciar a obra com uma conversa imaginária com Sócrates.

Eu pensei nesse capítulo no primeiro dia que imaginei o livro. Na mesma hora da ideia de fazer o livro, pensei nessa conversa com o Sócrates. Você acertou. Tinha várias dúvidas e vontades e algumas coisas eu queria falar para ele e não consegui porque ele morreu antes. Na parte da saúde, somos dependentes químicos, tanto eu quanto ele. Todos os prazeres que a droga me tirava, eu tenho hoje. O Magrão não conseguiu chegar a esse ponto. E não deu tempo de poder ajudá-lo. Mas queria dizer a ele que ele deveria ter percebido o que aconteceu comigo. Meu problema com as drogas foi antes do problema dele. Ele tinha de pensar em rever o seu comportamento. Ver o que aconteceu comigo… Eu esperava mais dele nesse sentido, talvez seja uma cobrança injusta da minha parte. Mas ele tinha de ver o que aconteceu comigo. Ele era médico, pô! E morreu por causa da dependência química. Quando ele morreu, pensei: ‘poderia ser comigo’. Nessa conversa imaginária, ele me diz isso”, relatou Casagrande ao Estadão.

Recentemente, em texto publicado no globoesporte.com, Casagrande reafirmou toda a sua admiração a Sócrates. “Magrão, meu caro amigo, você foi o amor da minha vida”, afirma. As palavras foram as mesmas em uma das últimas aparições públicas de Sócrates. “(O ‘Eu te amo’ para o Magrão) faz parte dessa sensibilidade feminina”, explicou Casagrande em entrevista ao Roda Viva.

Casagrande anunciou nesta quarta-feira seu desligamento do quadro de comentaristas do Grupo Globo. Ele ficou 25 anos na emissora e decidiu, em comum acordo, antecipar o fim do vínculo, meses antes da Copa do Mundo do Catar.