Gisèle Pelicot, que aos 73 anos se tornou o rosto global da resiliência contra a violência sexual, lançou oficialmente suas memórias. A obra reconstitui o pesadelo vivido em sua própria casa, onde foi drogada e estuprada por 51 homens (incluindo o ex-marido) ao longo de uma década. Mais do que um relato de horror, o livro é um manifesto político sobre a importância de “tirar a vergonha do lado da vítima e colocá-la no lado do agressor”.
Julgamento histórico: a decisão de Gisèle de renunciar ao anonimato permitiu que o mundo visse os rostos dos agressores — homens comuns, vizinhos e colegas.
Impacto legislativo: o caso Pelicot foi o pilar central para a recente reformulação da lei de estupro na França, que agora foca estritamente na questão do consentimento.
O choque da descoberta: no livro, ela relata o momento em que a polícia revelou a existência de imagens de 53 homens cometendo os crimes enquanto ela estava inconsciente.
Vingança humana: Gisèle descreve como a força das cartas de mulheres de todo o mundo e um novo amor a ajudaram a transformar fraqueza em poder.
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As memórias de Pelicot revelam a face doméstica e cruel do crime. Ela descreve a dor de contar a verdade aos filhos e o sentimento de “vazio” ao perceber que vivia com um estranho. “Eu era como um cachorro esperando pelo seu dono no portão do jardim”, escreve ela, sobre o período em que, sem saber, era vítima de um esquema de abusos orquestrado pelo próprio companheiro.
O confronto final e a busca por respostas
Apesar de nunca ter se dirigido diretamente ao ex-marido, Dominique Pelicot, durante o processo judicial, Gisèle revela no livro o desejo de visitá-lo na prisão. Ela busca respostas para perguntas que o tribunal não pôde sanar: “Você já pensou em parar?”, “Você abusou da nossa filha?”. Para ela, Dominique lhe deve essas respostas como parte da reconstrução de sua dignidade.
A sororidade como escudo
Um dos pontos mais emocionantes da obra é o reconhecimento do apoio internacional. Gisèle afirma que as milhares de cartas recebidas e a presença constante de mulheres na porta do tribunal em Avignon foram o que a impediram de sucumbir ao trauma. Esse apoio transformou um caso de polícia em um movimento social, conhecido como “Efeito Pelicot”, que hoje inspira mudanças em códigos penais de diversos países.
A força do recomeço
Ao contrário do que se poderia esperar de uma trajetória marcada pela traição extrema, Gisèle termina suas memórias falando sobre o amor. Ela relata ter encontrado um novo companheiro e afirma que sua capacidade de ainda ter fé na humanidade é sua maior vingança contra aqueles que tentaram destruí-la. “Não tinha medo. Eu precisava amar novamente”, conclui.
“Ninguém jamais saberia o que eles fizeram comigo… Agora, o mundo olha para eles e se pergunta como identificar estupradores entre seus vizinhos.”
Gisèle Pelicot, em “Um Hino à Vida”
Com informações da Reuters