Cultura

Gerald Thomas depois do futuro

O diretor lança coletânea com as peças dos anos 80 e 90 em que profetizou o caos atual — e promete reunir Rembrandt e Arthur Bispo do Rosário em 2020

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REVISÃO Gerald Thomas em sua casa em Nova York: comemorando criticamente 45 anos de palco (Crédito: Divulgação)

O teatro do diretor carioca Gerald Thomas antecipou cenários catastróficos que só agora começam a se materializar. A distopia exibida em suas montagens, cheias de jorros de palavras, rock, luz estroboscópica e nus, marcou a cena das duas últimas décadas do século XX. O público e a crítica se dividiram entre ódio e mais ódio, mas nunca indiferença. Isso num tempo em que havia crítica.

“Minha obra é dirigir na contramão em uma autoestrada, desviando dos veículos” Gerald Thomas, diretor

“Elevei os mestres que me formaram”, diz à ISTOÉ, por telefone, de Nova York, onde mora com a performer Adriane Gomes. “Tentei levar para os dias atuais as lições de Tadeusz Kantor, Peter Brook, Kazuo Ohno e Beckett. O mundo atual é uma mixórdia e ninguém sabe os nomes que cito.” Mesmo assim, ele se diz contente por ser mais imitado do que nunca por encenadores nacionais, “com o sorriso em um olho e uma lágrima no outro”. De transgressor nos anos 80, virou clássico aos 65 anos. “Em 2020, serei um ancião”, diz. “Socorro!”

A maior homenagem que recebe é o lançamento de “Um circo de rins e fígados” (Edições Sesc), coletânea de anotações de cena e 24 peças nunca reunidas, produzidas entre 1986 e 2017, do drama experimental “Eletra com Creta”, estreado no Museu de Arte Moderna do Rio, ao painel apocalíptico “Dilúvio”, encenado em São Paulo. Thomas volta ao Brasil depois de dois anos para preparar uma montagem para 2020 e lançar a obra.

 

Rembrandt nu

“Eu não conseguiria organizar um volume desse porte sozinho, abrangendo 45 anos de teatro em que o texto é uma parte da obra de arte total”, afirma. “O resultado é parte de minha produção, já que encenei 87 peças, muitas das quais não me lembro mais.” Para organizar o material, contou com a pesquisadora Adriana Maciel. Segundo ela, Thomas produz menos um texto banal que uma “inscrição cênica”. “O texto é mola propulsora das montagens, mas dificilmente se poderia pensar que toda a estrutura vem dele”, diz.

Thomas jura estar reinventando a forma de encenar. Para isso, usa como contramodelo a luz cegante do seu passado cênico. No ano que vem, monta em Copenhague e em Nova York “Gastrointestinal prayer” (Oração gastrointestinal), um relançamento de sua estética. Em São Paulo, apresenta “Rembrandt naked and afraid” (Rembrandt nu e com medo). Baseado em um reality show em que os competidores ficam nus para sofrer agruras, promove o encontro casual, em uma rua de Nova York, entre os artistas Rembrandt, o ecavalheiro holandês, e Arthur Bispo do Rosário, o brasileiro sem-teto.

“Hoje estou sereno depois de períodos de perturbação e tentativas de suicídio”, diz, lembrando 2016, quando se atirou de uma montanha gelada na Suíça, onde morava. “Estou falido, produtores me roubaram US$ 1 milhão, mas pronto para recomeçar.” Sesc Avenida Paulista, 11/12, às 20h, e Arte Sesc, Rio de Janeiro, 12/12, às 19h.