Genocídio fruto do descaso

Crédito: Adriano Machado

(Crédito: Adriano Machado)

Estatísticas sobre o número de vidas poupadas ou de mortes evitadas com políticas de isolamento começam finalmente a ser tabuladas, desmistificando crendices irresponsáveis daqueles que imaginavam serem inócuas as medidas tomadas de lockdown, proteção e controle de circulação. Apenas em São Paulo, para ficar em um caso emblemático, registra-se o salvamento, até aqui, de mais de 118 mil pessoas via orientação ao público para que deixasse de ir às ruas. É muita coisa! E os números se replicam País afora. No mundo, também. No contrafluxo do movimento, o destemido presidente Bolsonaro — de moto, jet ski ou a cavalo —, a tiracolo levando a tribo de insensatos seguidores, travou um confronto sistemático com a lógica da ciência e provocou aglomerações, infringindo o toque de recolher preventivo. Deu no que deu: o Brasil no topo da cadeia de casos e mortes. Ato contínuo, dias atrás ele foi denunciado por mais de 40 instituições no Tribunal Penal Internacional em Haia, justamente como culpado por um genocídio. A coalizão de organizações que encaminhou a queixa representa mais de um milhão de profissionais da saúde. Pessoas que estavam na linha de frente da inglória e arriscada batalha para debelar ou resistir à Covid-19. Com alguns colegas pagando com a própria vida por tamanho atrevimento e dedicação ao próximo. A reclamação em Haia é apenas uma a mais dentre outras 30 que seguem em análise na Corte referindo-se ao mandatário bananeiro dos trópicos. A conduta de seu governo na pandemia está tipificada e enquadrada dentro do contexto de genocídio pelo número de pessoas atingidas e em virtude do desastre causado. Configuram crimes contra a humanidade graves violações de direitos humanos embutidas nesse comportamento, digamos, libertino e desregrado. O capitão em pessoa fez pouco caso das reclamações. Deu de ombros. Nem liga. O sobranceiro atrevimento parece ligado à sensação de impunidade. Afinal, é ele o chefe impávido de uma nação, até aqui, dita democrática. A omissão e o descaso sobre as baixas por conta da doença fazem parte. Diria assim o soberano comandante. Muitas vezes, em algumas cabeças coroadas como a dele, confundem-se os significados de liderança e desmando. Suprema ironia é o incômodo causado nas forças militares que lhe prestam vassalagem quando arroladas pelo ministro do Supremo Gilmar Mendes como possíveis corresponsáveis dessa sarabanda de genocídios levada a cabo pelo capitão. Se alguns dos seus boinas verdes estão lotados no Ministério da Saúde, posto de controle das operações para debelar a doença, e nada entendem ou fazem que não atender aos desígnios de Messias, parece natural serem tratados como coniventes. A mesma expressão “genocídio” foi usada por outro ministro do STF, Luiz Roberto Barroso, que disse que a Suprema Corte impediu o governo Bolsonaro de produzir mais genocídio ao vetar a campanha “O Brasil Não Pode Parar”, que estimulava a volta ao trabalho, não importando a letalidade da pandemia em andamento. Seja entre juízes, médicos, autoridades em geral, a sensação de que o mandatário estimula comportamentos perigosos — para dizer o mínimo — é crescente. Vale lembrar que, ao final de maio passado, o Brasil já alcançava a assustadora marca de 10 mil mortos. De lá para cá, em pouco mais de dois meses, estamos prestes a bater o número de 100 mil. Quantas vidas mais serão necessárias para que autoridades como o imprudente Bolsonaro perceba a gravidade da situação e se engaje na luta adversa a essa crise sanitária? Difícil dizer, quase impossível crer. Alguém que, mesmo contaminado, foi capaz de pegar a moto e sair a passear, parando para confabular com trabalhadores, sem máscara, nos jardins do seu palácio, não tem realmente a noção do mal que está causando.

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