ROMA, 3 FEV (ANSA) – O ex-general “antigay” Roberto Vannacci, eurodeputado e secretário adjunto do ultranacionalista Liga, decidiu nesta terça-feira (3) abandonar a legenda comandada pelo vice-premiê e ministro de Infraestrutura da Itália, Matteo Salvini, e fundar um novo partido.
A decisão foi tomada após uma reunião com Salvini, em Roma, e marca o ponto final de meses de tensões internas, além de confirmar o afastamento político entre Vannacci e a atual liderança da sigla.
Vannacci, eleito para o Parlamento Europeu em 2024 como candidato independente da Liga, havia sido nomeado secretário-adjunto do partido há cerca de um ano. Desde então, passou a manifestar publicamente discordância em relação a diversas decisões de Salvini.
Nas últimas semanas, tornou-se também público que o eurodeputado trabalhava na construção de um projeto político próprio, situado à direita da Liga e inspirado na ideologia do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Em seus perfis nas redes sociais, Vannacci anunciou oficialmente a ruptura ao publicar uma declaração acompanhada do símbolo de um novo partido, batizado de Futuro Nazionale (“Futuro Nacional”, em português).
“Sigo meu caminho sozinho, com todos aqueles que perseguem o sonho de deixar para seus filhos um país melhor do que aquele que eles próprios receberam de seus pais”, escreveu. “A partir de hoje, o Futuro Nacional é uma realidade.” Por sua vez, Salvini reagiu compartilhando um vídeo gravado em Pontida, durante o comício da Liga de 2024, no qual Vannacci afirmava que permaneceria no partido.
Na publicação, o líder da legenda ultranacionalista acusou o eurodeputado de deslealdade e de fomentar divisões internas.
“Fazer parte de um partido, de uma comunidade, de uma família não se resume a receber, estar no centro de tudo, obter cargos e indicações”, afirmou. “Trata-se, acima de tudo, de trabalho, construção, sacrifício e, principalmente, lealdade.” Salvini citou “controvérsias, problemas, tensões, símbolos de possíveis novos partidos e associações” e criticou ataques direcionados a membros históricos da Liga.
“Diz-se desde os tempos romanos que um soldado jamais abandona seu posto. Mas, infelizmente, a história muitas vezes se repete: quantos já vimos mudar de lado e de partido?”, acrescentou.
Há tempos, Vannacci buscava influenciar a Liga “por dentro”, defendendo uma guinada mais extremista e posições marcadas por uma leitura nostálgica do fascismo. Sua popularidade deve-se ao sucesso do livro autopublicado “Il mondo al contrario”, no qual expressa visões racistas e homofóbicas.
A obra teve ampla circulação e levou, posteriormente, à sua suspensão do Exército italiano.
Apesar das controvérsias, a popularidade de Vannacci junto ao eleitorado da extrema-direita levou a Liga a lançá-lo como candidato ao Parlamento Europeu em 2024. Ele obteve cerca de meio milhão de votos, resultado considerado decisivo para o desempenho eleitoral do partido naquele pleito.
Salvini tentou capitalizar esse apoio, promovendo Vannacci ao cargo de secretário-adjunto com base em seus resultados eleitorais. A decisão, no entanto, provocou forte turbulência interna.
O chamado “Team Vannacci”, grupo de apoio territorial criado em diversas cidades, passou a atuar de forma autônoma e, em alguns casos, a interferir nas decisões das lideranças provinciais da Liga. O fenômeno gerou críticas de dirigentes históricos, que denunciaram a chamada “vannaccizzazione” do partido.
Vannacci também deixa o grupo Patriotas pela Europa no Parlamento Europeu, grupo que inclui, além da Liga, a Reunião Nacional da francesa Marine Le Pen. A delegação da Liga anunciou a decisão, observando que sua saída do partido torna sua permanência incompatível com a estrutura política do grupo.
(ANSA).