A reportagem de IstoÉ Gente entrou em contato com a assessoria de Rafaella Santos para que ela se manifestasse sobre o assunto, mas, até o fechamento desta matéria, ainda não tivemos retorno. O espaço permanece aberto.
Transtorno obsessivo-compulsivo
O psicólogo Alexander Bez fez uma análise e falou sobre o transtorno obsessivo-compulsivo e o comportamento relacionado a compras que algumas pessoas apresentam. Leia na íntegra!
“Quando falamos de gastos, estamos nos referindo a um transtorno obsessivo-compulsivo relacionado a compras. É importante destacar que não existe “vício” em compras ou em gastos, mas sim um transtorno obsessivo-compulsivo. Muitas pessoas não compreendem essa distinção.
Ainda sobre esse transtorno, podemos dividi-lo em duas categorias. A primeira é um comportamento específico, voltado para determinados itens, como joias, sapatos, roupas ou qualquer outro objeto que tenha um significado especial para a pessoa. Essa especificidade é um ponto relevante.
A segunda categoria é o gasto generalizado, onde a pessoa não tem limites nem foco. Esse quadro é mais preocupante, pois caracteriza um transtorno obsessivo-compulsivo na vertente do gasto irrestrito, tornando-se um problema ainda mais sério.
Quando gastamos excessivamente, o cérebro interpreta isso como algo trivial: “é só mais um gasto aqui, mais um ali”, o que acaba enganando o portador dessa patologia. Trata-se de uma doença mental séria, que gera impactos profundos na saúde financeira da pessoa.
A consequência direta disso é o comprometimento da saúde psicológica, que pode se agravar e desencadear outras sintomatologias, tanto no aspecto fisiológico quanto mental. Isso demonstra a complexidade do transtorno.
O transtorno do gasto compulsivo começa como um redemoinho no cérebro, o que caracteriza a obsessão. Não há obsessão sem compulsão – o transtorno obsessivo-compulsivo é uma condição dupla, não uma manifestação isolada.
A etiologia desse transtorno envolve dois aspectos fundamentais. Primeiro, a obsessão, que se manifesta em ideias, pensamentos e imaginações recorrentes. Segundo, a compulsão, que se traduz nas ações impulsivas. O prejuízo surge exatamente nesse ponto.
Além disso, esse transtorno causa arrependimento. Sem exceção, todos os transtornos obsessivo-compulsivos geram arrependimento ao final do ciclo compulsivo. Essa dinâmica pode variar entre homens e mulheres: enquanto as mulheres geralmente manifestam o transtorno por meio de compras, nos homens, ele tende a se expressar através do consumo de sexo pago. Essa relação já foi amplamente estudada e confirmada clinicamente.
No caso das compras, o ciclo funciona assim: o indivíduo adquire um objeto, experimenta uma satisfação momentânea e, em seguida, sente um forte arrependimento. Essa dinâmica reforça o transtorno e perpetua o comportamento compulsivo.
Agora, quando falamos de gastos elevados, como R$ 6 milhões, estamos lidando com um nível extremo. Esse valor equivale a um prêmio de loteria, o que por si só já indica a gravidade da situação.
Existe um limite de normalidade quando se trata de compras. Uma ou duas aquisições por semana, desde que sejam necessárias, são aceitáveis. Para pessoas da mídia, por exemplo, há uma demanda natural por um guarda-roupa diversificado e acessórios adequados. No entanto, é possível adotar estratégias para equilibrar esses gastos, como substituir joias por bijuterias. No caso do transtorno obsessivo-compulsivo, porém, essa capacidade de planejamento se perde.
O problema do transtorno é que ele é gradual e acumulativo – quanto mais o comportamento se repete, mais intenso ele se torna. E, com isso, o sofrimento da pessoa também cresce.
O consumo excessivo está diretamente ligado ao transtorno obsessivo-compulsivo. Não se pode falar em compulsão sem mencionar a obsessão. Isso vale para qualquer vertente da saúde mental. Diferentemente de um vício, a questão aqui não é simplesmente uma dependência química, mas sim um mecanismo neuropsicológico complexo.
Esse mecanismo provoca alterações neuropsicológicas e neuropsiquiátricas, que não aprofundarei para evitar uma discussão excessivamente técnica. Basta dizer que há uma inversão cerebral que dificulta a tomada de decisões racionais.
Além disso, quando o episódio compulsivo termina, a pessoa tende a acreditar que, dessa vez, conseguirá controlar o problema: “Agora eu ganho essa guerra, agora eu mudo.” Mas isso é uma ilusão. Sem um tratamento adequado, o ciclo se repete.
A origem dos transtornos obsessivo-compulsivos pode estar em duas vertentes: direcionada (focada em um objeto ou categoria específica) ou generalizada (abrangendo diversos tipos de gastos). Em alguns casos, ambas podem coexistir.
Pesquisas recentes nos Estados Unidos vêm explorando a etiologia desse transtorno e mostrando que sua base está na associação de fatores. Além da predisposição neuropsicológica e neuropsiquiátrica, sua causa envolve transtornos de ansiedade, estresse e uma carga externa significativa de pressão.
O tratamento adequado inclui a administração de ansiolíticos em doses controladas, especialmente em casos graves como esse. Além disso, pode ser necessário o uso de antidepressivos e medicamentos específicos para tratar a compulsão e a obsessão. Paralelamente, a psicoterapia desempenha um papel fundamental, com abordagens como a dessensibilização sistemática e estratégias para reduzir o consumo impulsivo.
Esse tratamento precisa ser seguido à risca para que a pessoa consiga retomar o controle sobre seus comportamentos.”