Edição nº2602 08/11 Ver edições anteriores

Game of Thrones, versão brasileira

Nos sete reinos de Westeros, lugar fictício onde se desenrola a trama de Game of Thrones — uma das mais bem-sucedidas séries televisivas da história — a guerra para ver quem ficará com o trono de ferro é feroz. Nobres lutam contra nobres e o jogo político é permeado por promessas não cumpridas, juramentos de lealdade ignorados e intrigas que correm solto nos corredores dos castelos. Mas nenhum dos que pleiteiam para si o comando de Westeros parece ter notado que, ao final de tudo, nada haverá para comandar. O jogo para chegar ao trono foi tão pesado que Westeros virou terra arrasada.

O Brasil anda parecido com Westeros. Já somos terra arrasada, mas os jogadores que brigam pelo poder fazem vista grossa. Enquanto o País afunda um pouco mais a cada dia, eles continuam lá, lutando sabe-se lá pelo o quê. Ou melhor, até se sabe, mas depois de tantos anos sufocados por uma profunda crise econômica e ética, os brasileiros estão esgotados, como os habitantes dos sete reinos que nem sequer aparecem na trama. Em Game of Thrones não se fala deles. No Brasil de 2019, nenhum dos que se digladiam pelo poder em Brasília refere-se ao povo brasileiro. Sabe aquele de verdade, que acorda todo dia esperando por um emprego, por uma vaga na escola ou no hospital? Essa turma não existe ou é invisível.

O fato é que está fácil para os jogadores brasileiros. Ao contrário das pessoas comuns, os atores da versão brasileira de Game of Thrones têm salário garantido e muita mordomia à disposição. Será que se um ministro do Supremo Tribunal Federal, um deputado, um ministro ou o presidente da República ficassem sem receber seus pagamentos em dia eles agiriam de forma diferente? Pensariam em como reconstruir o País para depois decidir quem manda mais? Entenderiam, finalmente, a urgência de se concentrar no que interessa — a reforma da Previdência, por exemplo — para que o interesse coletivo se sobreponha aos egos?

Na série da televisão, os sete reinos também são ameaçados pelo exército dos mortos, uma multidão de zumbis que destrói o que vê pela frente. Lá em Westeros, eles já avançam em direção aos vivos. Em tese, os que lutam pelo trono deveriam unir-se contra esse exército, o inimigo de todos. Mas a sede de poder impede que eles enxerguem que é hora de parar de brigar e sim de traçar uma estratégia comum para salvar os reinos. Não se sabe o que vai acontecer na ficção. Também não se sabe o que acontecerá no Brasil se a cegueira pelo poder continuar mais forte do que o desejo de formar de novo uma nação.

O Brasil anda parecido com Westeros. Já somos terra arrasada, mas os jogadores que brigam pelo poder fazem vista grossa à realidade

 

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Cilene Pereira

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