Ediçao Da Semana

Nº 2742 - 12/08/22 Leia mais

O encontro do G7 na Alemanha, encerrado hoje, mostrou que as democracias mais ricas vão continuar unidas e determinadas a ajudar a Ucrânia a resistir à invasão russa, apesar da esperança que Vladimir Putin nutria pelo dissenso. Os líderes de EUA, Alemanha, França, Itália, Canadá, Reino Unido e Japão também decidiram mudar o status da China entre o grupo de países. Ao invés de se beneficiar de ampla cooperação e integração crescente, o gigante asiático passou a ser encarado como uma ameaça estratégica.

É a maior mudança na geopolítica mundial desde a queda do muro de Berlim. Vladimir Putin consolidou nos últimos 20 anos um próspero capitalismo de oligarcas amparado na riqueza extraída do petróleo, do qual a Rússia é um dos maiores exportadores do mundo. Fez isso ampliando os laços com a economia ocidental, inclusive com a importação de know-how e tecnologia.

Essa integração foi revertida a partir de fevereiro, com a imposição de sanções econômicas, fuga de empresas e rompimento dos laços financeiros. A Europa diminuiu as importações do gás russo, e o próprio Vladimir Putin já iniciou o corte do suprimento ao continente. As sanções ao petróleo russo (que vão ser ampliadas, conforme os líderes decidiram no G7) aceleraram a alta do hidrocarboneto no mercado mundial, o que até hoje contribuiu para evitar um choque maior na economia russa. Apesar de transformado em pária mundial, Putin obtém hoje 50% a mais de renda com o petróleo do que antes da guerra. Isso permitiu segurar o valor do rublo, aumentar os benefícios sociais à população e financiar a máquina de guerra.

Mas essas benesses não devem se estender por muito tempo. As maiores economias estão reorientando suas cadeias de suprimento. É uma questão de tempo para que Putin passe a sofrer maior pressão da sociedade russa, diante da decadência econômica e com o fim da prosperidade que conseguiu recolocar o país nos trilhos depois do colapso soviético. A ditadura de Putin, inspirada no expansionismo dos czares e na própria herança comunista, será contida cada vez mais.

Isso acontecerá principalmente por meio militar, com o reforço da OTAN, que renasceu com a intervenção na Ucrânia. A aliança militar ocidental de 30 países começou hoje um encontro de dois dias em Madri com a presença de Joe Biden e, pela primeira vez, de convidados do Pacífico: Japão, Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia. É esperado para esta quarta-feira, 29, o anúncio de um incremento de tropas nos países do leste europeu, como forma de proteção e advertência contra Putin. Também haverá reforço por ar e mar. Foi a promessa do conselheiro de segurança nacional americano, Jake Sullivan. Apesar das negociações ainda pendentes com a Turquia, Suécia e Finlândia estão se integrando à OTAN, uma mudança histórica que colocará as tropas da aliança diretamente na fronteira com a Rússia.

Essa mudança já vinha se consolidando, mas há outra que passou a ganhar corpo: a contenção também da China. Daí a presença dos aliados asiáticos em Madri. A Europa resistia à “nova guerra fria” entre os EUA e a China, mas passou a se associar aos EUA por causa da aliança estratégica entre Pequim e Moscou. O lançamento na última semana do terceiro porta-aviões chinês foi uma demonstração do poderio militar e das intenções de projeção mundial do país, mas esse caminho será cada vez mais desafiado também militarmente.

Os países ocidentais também anunciaram investimento bilionários para suprir a falta de alimentos causada pela guerra na Ucrânia, uma arma que Putin estava usando para se contrapor às sanções (quase a metade da população dos países pobres enfrenta falta de alimentos, segundo o Banco Mundial). Mas o objetivo secundário é neutralizar o soft power chinês na África, no Oriente Médio e na América Latina, por meio da nova rota da seda, uma iniciativa de altos investimentos pelo mundo.

São grandes movimentações nas placas tectônicas da política mundial. No curto prazo, o Ocidente quer neutralizar as crises humanitária e alimentar causadas por Putin, além da volta da retórica da ameaça nuclear. Mas o verdadeiro alvo é a expansão do capitalismo de estado e das autocracias.