Após uma paralisação forçada de mais de dois anos devido ao conflito devastador entre Israel e o Hamas, o som do apito inicial voltou a ecoar em solo palestino. A Associação Palestina de Futebol mobilizou um torneio que reúne 24 clubes locais no chamado “Palestine Pitch”, um campo de tamanho reduzido localizado em um terreno baldio cercado por prédios em ruínas no bairro de Tal al-Hawa, na Cidade de Gaza.
Em um cenário onde a sobrevivência é a prioridade diária, o esporte ressurge como uma tentativa de normalidade. Para viabilizar os jogos, a organização precisou varrer detritos da antiga grama artificial, retirar escombros de muros desabados e instalar cercas de arame. Meninos subiram em muros de concreto quebrados ou espiaram por buracos nas ruínas para assistir às partidas, enquanto o ritmo de tambores tentava abafar as lembranças do combate.
Resumo
A Associação Palestina de Futebol organizou o primeiro torneio em Gaza em mais de dois anos, reunindo 24 clubes locais.
Partidas inaugurais entre Jabalia Youth, Al-Sadaqa, Beit Hanoun e Al-Shujaiya marcaram o retorno das competições.
Cerca de 90% da infraestrutura esportiva foi destruída, incluindo o Estádio Yarmouk, que hoje serve de abrigo para desabrigados.
O evento foca na superação do trauma e na mensagem de que o povo palestino continua a viver apesar da guerra.
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Infraestrutura em ruínas
A realidade do esporte em Gaza é dramática. Estima-se que 90% da infraestrutura esportiva do território tenha sido destruída. O histórico Estádio Yarmouk, com capacidade para 9.000 pessoas, é o maior símbolo dessa perda. Destruído durante a guerra e utilizado pelas forças israelenses como centro de detenção, o local hoje abriga famílias deslocadas em barracas brancas sobre a terra marrom que antes era o gramado.
Atualmente, cerca de 2 milhões de pessoas — quase a totalidade da população do enclave — vivem amontoadas em uma faixa de ruínas ao longo da costa, após ordens de evacuação de quase dois terços do território. Quatro meses após o cessar-fogo que encerrou os combates principais, a reconstrução ainda é praticamente inexistente.
O luto nos vestiários
Para os atletas, entrar em campo evoca sentimentos conflitantes. Youssef Jendiya, jogador de 21 anos do Jabalia Youth, descreveu a sensação como uma mistura de confusão, tristeza e alegria. “As pessoas procuram água pela manhã: comida, pão. A vida é difícil. Mas ainda resta um pouco do dia em que você pode vir jogar futebol e expressar a alegria que tem dentro de você”, relatou o atleta.
Contudo, a dor das ausências é onipresente. Jendiya ressaltou que a alegria é incompleta, pois muitos companheiros de equipe foram mortos, feridos ou precisaram viajar para tratamento médico no exterior. Apesar do luto, a mensagem levada ao campo por jogadores como Amjad Abu Awda, do Beit Hanoun, é de resiliência: “Continuamos jogando e vivendo. A vida precisa continuar”.