Futebol, cerveja e palavrão

Durante anos o Juvenal foi o titular absoluto da meia-direita. Tantos anos, que os amigos nem lembram quando começou o hábito de se reunir nas noites de quinta para jogar, como pretexto de tomar umas cervejas depois.

Só lembram que o grupo foi crescendo até juntarem os necessários 22. Hoje se orgulham de jogar no campinho da Dona Glória, com grama natural e iluminação. Coisa finíssima.

Mas Juvenal, um dos fundadores, há três semanas, sumiu.

Quinta passada, quem levantou a bola foi o Major, goleiro:

– Alguém sabe do Juva? Sumiu ele.
– Três semanas já.
– Ixi… será?
– Que?
– Covid?

A suspeita da doença fez com que o Hermes, centro-avante e outro fundador, pegasse imediatamente o celular (proibido durante a cerveja) e ligasse para o amigo. Juvenal atendeu.

– Quem é?
– Juva, seu celular não identifica chamada, caceta?
– Identifica. Mas eu não enxergo de perto.
– É o Hermes! Tamô aqui no futebol, preocupados com você. Tá tudo bem? Faz três semanas que você não aparece, poxa. A gente achou que você tava com covid.
– Nha… quem dera fosse covid.
– Nossa, Juva — Hermes bate três vezes na mesa de plástico — Deus me livre!
– Covid eu tiraria de letra com meu histórico de atleta… deixa pra lá, outra hora a gente fala… não tô com cabeça agora.

Juvenal não gosta de falar ao telefone, então deu essa desculpa esfarrapada e desligou. Ficaram todos ainda mais preocupados. Decidiram suspender a cerveja e irem todos à casa do amigo. — Mas são quase dez da noite! — alegou o Claudionor, lateral esquerdo.

– Amizade não tem hora. — Hermes encerra a discussão.

Foram todos para o Grajaú.

A Dulce, mulher do Juvenal, é quem abre a porta. Era o medo do Claudionor. Que a mulher os botasse para correr. Mas que nada. Ainda na porta ela diz:

– Que bom que vocês vieram… ele tá um trapo. Não come direito, não assiste mais o Corinthians. Às vezes nem vai trabalhar. Juvenal recebe os amigos com desânimo.
– Vocês vieram é? Tá bom, então. — sentem aí que vou pegar umas cervejas.

Os amigos mal reconhecem o Juvenal, pálido e com olheiras.

Já com as cervejas, Hermes abre a conversa:
– Vai Juva. Desembucha. O que que houve?
– Nada não… Os amigos insistem. Juvenal, finalmente desabafa.
– Bom… se vocês insistem… Começou lá mesmo no futebol, no dia que o Gildo perdeu o pênalti, lembram? Todos lembravam.
– Então. Quando ele chutou pra fora, eu mandei ele tomar vocês sabem onde. Todos sabiam.
– Aí a Dona Glória mandou eu não falar palavrão.
– Como assim? — perguntou o próprio Gildo — a gente sempre mandou todo mundo praquele lugar.

Se fosse a Covid-19 eu não teria parado de jogar, tiraria de letra,
com meu histórico de atleta… Mas deixa pra lá, outra hora a gente fala

– Então! Foi o que eu disse. Mas ela disse que agora não pode mais. Que palavrão é politicamente incorreto.
Dona Glória, afinal, é a dona do campinho.
– E também não pode mais piada de português, porque é xenofobia. Nem de gordo que é gordofobia. — Eita.
– É. Foi o que eu disse. Mas ela disse que agora o campinho vai ser “um espaço livre de bulling”. Os amigos estavam de queixo caído.
– Tem mais. Ela disse que não pode mais meter o pau no Bolsonaro.
– Sempre soube que a Dona Glória era bolsominia! — Hermes dá um gole na cerveja.
– Que nada. Ela disse que não pode meter o pau no PT também. Os amigos ainda tentaram jogar por mais um mês.

Mas aos poucos, um por um, foram desistindo.

Que graça tem jogar futebol sem falar palavrão? Que graça tem tomar cerveja sem piada ou meter o pau nos outros?

Hoje o Hermes, o Bola, o Major jogam poker todas as quintas na casa do Juvenal.

A Dulce ficou feliz de ver o marido mais feliz e em casa com os amigos.

Mas confessa que os palavrões incomodam um pouco.

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