Internacional

Fuga de Nova York

Durante a pandemia, 70 mil pessoas deixaram a maior metrópole americana, assustadas com o grande número de mortes por Covid e pela violência urbana: o êxodo as levou para regiões mais pacatas na Flórida, Pensilvânia e subúrbios como Hamptons

Crédito: Drew Angerer

Apartamentos para alugar Placas como esta no Brooklyn são vistas por toda Nova York (Crédito: Drew Angerer )

CUSTO DE VIDA Fabiano Proa lembra que Nova York superou diversas crises econômicas; Clarisse Rodrigues (abaixo) comenta que agora o preço dos aluguéis caiu (Crédito:Divulgação)

Dezenas de milhares de moradores fugiram de Nova York, no segundo semestre do ano passado, quando o coronavírus flagelava a cidade mais rica do mundo. Um estudo da Unacast, consultoria americana, estima que 70 mil pessoas deixaram a cidade no ano passado, resultando em uma perda de US$ 34 bilhões (R$ 170 bilhões) para a economia local. A fuga foi principalmente da população mais abastada que vivia em Manhattan, o mais rico dos cinco distritos da metrópole americana. “Muita gente trocou Manhattan, durante a pandemia, por outras regiões, como a Flórida, ou subúrbios como Hamptons. Agora que a pandemia arrefeceu um pouco, há sinais de que algumas pessoas que foram embora e não haviam vendido os imóveis já começam a pensar em voltar”, diz Steven James, executivo-chefe da imobiliária Douglas Elliman New York City.

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A pandemia atingiu particularmente proprietários do pequeno varejo e do setor imobiliário, que entrou em crise por conta dessa redução de inquilinos. “A situação é complicada porque pelo menos um terço das 32,6 mil lojas fechou durante a pandemia. Aqui todos os contratos comerciais são de dez anos. Se o lojista sai antes, não importa o motivo, precisa pagar os dez anos. Por isto, muita gente entregou a loja e ficou inadimplente”, explica Fabiano Proa, corretor de imóveis brasileiro que vive há 30 anos em Nova York. O publicitário Kevin Pearsall, de 35 anos, foi embora de Nova York há um ano, logo no início da pandemia. Ele e a esposa foram viver em Atlanta, na Geórgia. Pearsall diz que, por enquanto, não pensa em voltar. Embora Nova York tenha vantagens na vida cultural, o custo de vida é muito alto. Ele e a esposa trabalham remotamente para empresas de Nova York.

Dados da empresa Miller Samuel Real Estate Appraises indicam que em função do êxodo, os valores dos aluguéis caíram 20% em toda a cidade. A pandemia da Covid-19 matou pelo menos 30 mil pessoas em Nova York, segundo dados da Universidade Johns Hopkins, e isso foi o que deixou os moradores da cidade em pânico. “No verão de 2020, no auge da pandemia, as pessoas começaram a se mudar de Nova York. Eu tinha um grupo de dez amigas, só ficamos eu e uma outra colega. Todas foram embora, para a Pensilvânia e Virgínia. Uma voltou para o Peru. Elas perceberam que a pandemia iria durar mais tempo que o esperado”, diz a brasileira Clarisse Feitosa Rodrigues, que vive há sete anos em Nova York e trabalha em uma galeria de arte.

Vacinação em massa

Clarisse confirma que os preços dos aluguéis tiveram uma forte queda em razão da debandada. Um apartamento de um dormitório, com sala e cozinha, no Greenwich Village, perto do rio Hudson, que tinha aluguel de US$ 3.100, hoje é alugado por US$ 2.500. A brasileira vive em um apartamento no Upper East Side e paga aluguel de US$ 1.600 mensais. Segundo ela, um apartamento nesta localização custaria, em tempos normais, pelo menos US$ 2.000. “A cidade está com muitos apartamentos vazios. Os restaurantes operam com 35% da capacidade indoor (dentro dos locais) e devem passar em breve para 50%”, comenta. O museu Metropolitan, por exemplo, só reabriu no final do ano passado.

“Nós já pensávamos em ir embora de Nova York, a pandemia apenas acelerou as coisas” Kevin Pearsall, publicitário (Crédito:Divulgação)

O corretor Fabiano Proa observa que algumas mudanças no varejo já ocorriam antes da pandemia, como a abertura de spas e clínicas de saúde em Manhattan, principalmente na área do Soho (South of Houston). Segundo ele, o Brooklyn foi um pouco menos afetado. “Tenho uma cliente brasileira que tem um SPA no Soho e está indo muito bem. A mudança do perfil dos serviços foi acelerada pela pandemia”, diz, notando que algumas clínicas começam a ser reabertas na região. Proa afirma que o pior das falências durante a pandemia ocorreu na Midtown, entre a rua 42 e o Central Park. “Os preços desabaram e Midtown está morta”, diz. Ele acredita, porém, que agora que a vacinação em massa se intensifica nos EUA, sob o governo Biden, Nova York ressurgirá da pandemia ainda mais forte.