Brasil

Frituras em fogo brando

Bolsonaro chamusca mas não torra os incompetentes sabujos do governo. E põe para fora os seus impulsos primitivos ao demitir os que não se submetem ao seu temperamento utilitarista

Frituras em fogo brando

MASTER CHEF Bolsonaro, Onyx Lorenzoni, Abraham Weintraub, Sergio Moro e Hamilton Mourão (da esq. à dir.): iguarias e marionetes

O homem é “o homem e sua circunstância”, nos ensinou o filósofo espanhol José Ortega y Gasset. Em uma de suas mais abrangentes acepções, tal conceito significa que “o homem sempre estará fisicamente mergulhado no momento histórico”, exercendo qualquer atividade não apenas com a razão mas, também, a partir de sua estruturação biopsicossocial – ou seja, as suas decisões não se dão isoladas de seu temperamento, que é um dos fatores prevalentes da personalidade. A personalidade é uma “circunstância” e as medidas tomadas são, assim, por ela influenciadas. Exemplo típico, e “idealtipo” weberiano do que se está expondo, chama-se Jair Bolsonaro: é devido ao seu temperamento que ele tem atitudes movidas por impulsos primitivos, o que não quer dizer que, em outras ocasiões, não faça oportunistas cálculos das vantagens que lhe podem advir quando procrastina situações. Isso fica claro no jogo que promove com seletivas demissões de alguns ministros e secretários não aduladorews, e, por outro lado, com a fritura em fogo brando com a qual vai levando aqueles que tropeçam no cargo mas o bajulam. Para competente que não é puxa-saco, a porta da rua é serventia da casa! Incompetente puxa-saco dá para aguentar… e se divertir!

Bolsonaro gosta daqueles para os quais a migalha de um cargo os faz se sentirem verdadeiros brioches

Bolsonaro não utiliza parâmetros politicamente racionais nem programáticos de governo, não lhe interessa se determinado indivíduo está sendo ineficiente – vai lentamente fritando-o. “Aos amigos os favores, aos inimigos a lei”, é a célebre frase do filósofo e historiador Nicolau Maquiavel à qual o presidente adaptou o seu método de exonerações, embora jamais tenha lido “Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio”. Tomemos dois gênios da psicanálise, Sigmund Freud e Jean Jacques Lacan, e neles encontraremos as definições dos elementos básicos que compõem o mundo emocional: id, ego e superego. O id dá guarida aos desejos reprimidos, ao ódio armazenado; o ego é a personalidade que se expõe publicamente; e o superego funciona como freio de ambos. Bolsonaro parece não tê-lo. No homem político, o superego é o vigia a dizer que se deve agir programaticamente, a partir de princípios democráticos e republicanos. Não foi isso, no entanto, que o norteou ao mandar para casa Gustavo Bebiano e o general Santos Cruz. Foi o primitivismo do impulso.

Exibicionismo e utilitarismo

Há os incompetentes amigos dos quais nos falou Maquiavel, e, esses, Bolsonaro vai fritando como quem não quer levá-los à mesa — fato que, se olhado pelo aspecto do inconsciente, não deixa de ser uma espécie de divertimento exibicionista temperado com sádico utilitarismo e baseado também no id, ou seja, no impulso básico, só que abrandado porque serve ao caráter patrimonialista do mandatário. É claro que tais amigos acham que lhes é importante adular o capitão, e então se mostram “mais realistas que o rei” (a frase tem origem na monarquia portuguesa). A migalha de um cargo os faz se sentirem verdadeiros brioches.

Nessa frigideira, que chamusca mas não torra, está o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e Bolsonaro o faz se equilibrar no arame farpado da subserviência — vide a farra com o erário feita pelo ex-secretario-executivo Vicente Santini. Ele, Santini, errou nas contas: sua amizade com o clã Bolsonaro é antiga, mas a amizade do presidente com Onyx é anciã. Junte-se o ministro da Educação, Abraham Weintraub. Como alguém tão despreparado segue caindo só na aparência? O filósofo Wilson Gomes, autor do excelente “A democracia no mundo digital”, resumiu a questão: “Weintraub não será demitido (…) seus defeitos são os mesmos do presidente (…)”. Além disso, podemos dizer que Weintraub alimenta o infantil narcisismo do capitão. São todos sabujos, são todos mortos-vivos com os quais um mandatário rancoroso brinca de assombrar.

Já o ministro Sergio Moro vive no vaivém da frigideira por motivo contrário: ele ousa peitar o presidente. E o vice Hamilton Mourão experimenta o mesmo fogo baixo devido à mania persecutória do mandatário que nele vislumbra um golpista. Enfim, em se tendo Bolsonaro na cozinha, a frigideira do Planalto tem duas medidas de óleo e duas gradações de fogo.