Cultura

Frederico Lourenço: “Nunca haverá uma tradução definitiva”

O tradutor do Novo Testamento do grego para português diz tenta aproximar o leitor dos textos sagrados – mas a aproximação não faz jus aos detalhes do original

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O escritor Frederico Lourenço (Crédito: Divulgação)

Quem lê a Bíblia em idioma moderno pode ter a sensação de estar em contato direto com textos divinos. Mas a experiência não é tão simples quanto parece. O leitor muitas vezes encontra-se sem saber diante de uma tradução ruim ou imprecisa, entre tantas as que são realizadas da obra mais popular do planeta – os números dão conta de que, desde o lançamento da Bíblia em livro e da imprensa por Gutenberg em 1453, foram vendidos cerca de 6 bilhões de exemplares, sem contar os códices e manuscritos produzidos da Antiguidade ao Renascimento. O fato é que não há garantia de estilo e muito menos fidelidade no que diz respeito aos textos sagrados. Quanto mais os leitores – e tradutores – se deixarem arrastar pelas fontes originais das escrituras, mais ficarão confusos em meio a um vórtice de imprecisões. O leitor ou o tradutor finalmente se fará a pergunta sobre se existe um texto genuíno – e constatará que ele não existe mais. Para compensar essas perdas na tradução e na docuentação, o tradutor, helenista e filólogo português Frederico Lourenço,5 5 anos, está traduzindo o Novo Testamento diretamente do grego. Já saíram dois volumes, pela Companhia das Letras: o primeiro com os quatro evangelhos e o segundo com as epístolas, atos e o Apocalpise de João. Nesta entrevista exclusiva, ele aborda os desafios e os problemas que as Escrituras oferecem.

A tradução da Bíblia colaborou na formulação de procedimentos de tradução e na reflexão sobre a própria tradução mesmo antes dos Evangelhos – e depois com  São Jerônimo. Que lições o Sr. tirou dessa tradição e que critérios usou para traduzir o Novo Testamento? Por exemplo, o Sr. considera o texto como sagrado ou literário?

O critério principal do meu trabalho é a proximidade relativamente ao texto grego. Procuro dar a ler, em português, um Novo Testamento que seja o mais próximo possível do texto grego. Não abordo os textos que compõem o Novo Testamento como sagrados ou como literários: abordo-os como documentos do primeiro cristianismo e dou-os a ler sob uma perspectiva histórica. O uso teológico que depois se fez destes textos centenas de anos depois interessa-me menos do que a sua materialidade real como documentos do século I.

Quais os principais problemas o Sr. tem encontrado no trabalho de tradução do Novo Testamento?

Uma dificuldade foi acertar com a maior exatidão possível as palavras coincidentes nos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas. No caso dos textos de Paulo, há o próprio pensamento do apóstolo que é muitas vezes desafiante no raciocínio e na ligação entre as ideias. Há o exemplo evidente da 2.ª Carta aos Coríntios, que os estudiosos consideram uma colagem feita a partir de vários textos de Paulo: nessa carta as descontinuidades de pensamento são notórias. Paulo é um escritor difícil, também porque os textos dele atingem uma beleza em grego que é difícil transpor para português.

Há diferenças de registro nos textos do Novo Testamento. O Sr. poderia comentar, por exemplo, que diferenças há entre os quatro Evangelhos e o Apocalipse? Este último oferece aspectos e dificuldades diferentes?

O Apocalipse é diferente de tudo o que lemos no Novo Testamento, porque o grego em que está escrito é curioso, por um lado, devido a algumas excentricidades gramaticais, mas por outro lado é um grego simples e claro, mais simples até do que o grego dos Evangelhos (que já são simples comparados com as Epístolas do Novo Testamento ou com os Atos dos Apóstolos). Sinto no livro de Apocalipse uma grande imaginação poética em acção. O autor tem uma capacidade incrível de nos pôr imagens inesquecíveis diante dos olhos. Devo dizer que, de tudo o que já traduzi até agora da Bíblia, traduzir o livro de Apocalipse foi das coisas que me deu mais gosto.

O que o Apocalipse traz em termos literários?

Em termos literários o Apocalipse é um caso fascinante pelo facto de estar escrito numa língua, o grego, que tinha uma tradição literária do mais alto nível, tanto na poesia como na prosa. O autor do Apocalipse consegue criar um texto de grande valor literário sem precisar de nenhumas das técnicas ou qualidades da literatura clássica greco-latina. Usa frases extremamente simples, vocabulário simples, mas compensa essa simplicidade com a imaginação ilimitada que mostra em cada frase, em cada imagem que ele consegue tornar real.

O Sr. poderia comparar os problemas e desafios que encontrou da tradução do Novo Testamento e das obras homéricas?

Um ponto de ligação entre os dois trabalhos de tradução é o facto de serem textos dos quais nunca haverá uma tradução definitiva. Qualquer tradução da Ilíada ou da Odisseia é apenas uma proposta; e é por isso que elas são todas tão diferentes umas das outras. O mesmo se aplica ao Novo Testamento. De qualquer forma, apliquei o mesmo método na tradução dos poemas homéricos e na tradução do Novo Testamento: procurar sempre a maior proximidade possível ao texto grego. Prefiro sempre a literalidade na tradução à sua literariedade.

O Novo Testamento tem uma tradição de traduções. O Sr. poderia comentar as características dessas traduções, a começar pela de Jerônimo?

A Vulgata de Jerônimo é um livro que está sempre na minha mesa de trabalho, porque gosto muito de ler a Bíblia em latim, sobretudo o Antigo Testamento. As opções de tradução que encontramos na Vulgata foram determinantes para a história do cristianismo, mesmo quando são discutíveis do ponto de vista linguístico. Ainda hoje os cristãos discutem qual seria a versão mais correcta do «Pai Nosso», já que o texto grego e o texto latino permitem leituras diferentes de algumas palavras. No caso de Paulo, também há passagens em que o latim da Vulgata permitiu uma leitura teológica que não está no texto grego. Escrevo uma nota a esse respeito a propósito de Romanos 5:12.

Em que aspectos a sua tradução colabora para a compreensão do Novo Testamento em português?

A minha tradução tem o objetivo de trazer o texto grego do Novo Testamento mais próximo de todas as pessoas que não sabem grego. Procuro também, nas notas à tradução, dar conta de muitas dificuldades e curiosidades linguísticas que o texto grego suscita. Procuro também explicar as razões pelas quais a língua portuguesa não permite manter todas as nuances do texto grego. Estou convicto de que quem ler a minha tradução do Novo Testamento ficará a conhecer melhor algumas das mil questões que o texto levanta.

Qual é o legado da Bíblia para a cultura? Ela tem sido usada com muitas intenções, inclusive a de manipulação espiritual dos fiéis. Enfim, se o Cristianismo fosse varrido do mapa, o que sobraria da Bíblia para aqueles que não creem nos seus ensinamentos?

Eu penso que a Bíblia tem textos extraordinários mesmo para quem não é cristão (ou judeu, no caso do Antigo Testamento). Os quatro Evangelhos são textos de uma beleza única. E a mensagem de Jesus, quer sejamos ou não formalmente cristãos, é uma mensagem para todas as épocas e todos os povos. Entre as Epístolas do Novo Testamento, eu destaco a minha preferida, que é a Carta de Tiago. No caso do Antigo Testamento, também há textos com um grande alcance cultural.

Quando o Sr. pretende concluir o projeto de tradução dos textos bíblicos, em seis volumes?

É difícil prever ao certo, tratando-se de um projeto tão extenso. Em Portugal, já saíram os dois volumes do Novo Testamento e os Profetas do Antigo Testamento. Ainda este ano sai o volume com os Livros Sapienciais. Sei que os livros históricos me ocuparão mais tempo, porque se trata de um corpus muito grande, maior em grego do que é no texto hebraico.

O Sr. tem trabalhado com textos canônicos, como Ilíada, Odisseia e Novo Testamento. Quais seus planos de tradução de outras obras? Quais seriam? 

O meu objetivo principal é terminar a tradução da Bíblia. Às vezes pergunto-me se, depois disso, fará sentido traduzir qualquer outro livro! 

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