Comportamento

Papa Francisco desafia Vaticano ao expor que também é humano e fica doente

Combinando bom humor com estocadas certeiras, ele não tem problemas em desafiar o Vaticano ao revelar problemas de saúde, mostrando-se demasiado humano

Crédito: Alessia Giuliani

HUMANIDADE O papa Francisco em cadeira de rodas, durante audiência no Vaticano (Crédito: Alessia Giuliani)

Assim que a fumaça branca assinalou à multidão na Praça de São Pedro, no Vaticano, que um novo papa havia sido eleito, Jorge Mario Bergoglio surgiu sorridente no balcão central da Basílica. Era 13/3/2013, data cercada de simbologia numérica, valores revelados de independência, coragem, sociabilidade, inovação. Meio no susto, o argentino de 76 anos, que passaria a se chamar Francisco, quase coloca em xeque o dogma de Igreja quanto à infabilidade do papa: disse que iria abençoar a todos, mas antes pedia que os “irmãos e irmãs” rezassem por ele. Assim foi feito.

Francisco, que andava de metrô para percorrer vilas operárias em Buenos Aires, foi ganhando a simpatia do mundo. Se não temeu mexer com alguns vespeiros milenares da Igreja, por que iria se preocupar em esconder que precisa fazer uma cirurgia no joelho? Dores foram a razão revelada para aparecer empurrado em cadeira de rodas na quinta-feira, 5, em audiência com freiras no Vaticano. Em 2020, o mundo já sabia que Francisco padecia de problemas no intestino, que o levaram a uma cirurgia em 2021.

Bem-humorado, mas sempre se mostrando firme, Francisco foi se afastando do luxo reservado aos papas e não temeu o confronto com membros do Banco do Vaticano, que em 2017 contava com ativos de 6 bilhões de euros e histórica ligação com o crime organizado. A necessária ingerência gigantesca de limpeza financeira contra o que seria uma quadrilha dentro do Vaticano, talvez tenha sido um dos motivos de Bento XVI escolher abdicar, ao invés de levar a ameaçadora tarefa adiante.

Nem sempre foi assim. Além de infalível, os papas não podem ser humanizados pela dor e o Vaticano encobre seus padecimentos. A história registra mortes explícitas, de papas pendurados de cabeça para baixo, atacados por javalis, destroçados por leões… Mas desconfia-se de doenças crônicas e assassinatos encobertos pelo Vaticano, em mortes divulgadas como “por ataque cardíaco”. Foi o caso de Pio XI (papa entre 1922 e 1939), com problemas por vários anos; de João XXIII (1958 a 1963), que passou por tentativa de assassinato nas Filipinas em 1970; de João Paulo I (33 dias de pontificado em 1978), que teria sido envenenado ao descobrir falcatruas financeiras. O atentado contra João Paulo II (1978 a 2005) não deu para esconder, em 1981: o papa levou um tiro na Praça de São Pedro.

Francisco não tem problemas para se expor, da mesma forma que toca em tabus sob visões mais atualizadas, como no pedido a pais que apóiem filhos gays, ou em estocadas como o conselho às sogras, para “ter cuidado com a língua”. Sobre a guerra da Ucrânia, o papa especulou que a OTAN pode ter levado Vladimir Putin a invadir a Ucrânia. Disse que “não é hora” de se encontrar com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, mas segue tentando falar com o russo, para “parar com tanta brutalidade”.

Liteira nos ombros

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A Sedes gestatoria (em latim) é o trono portátil do Papa, recoberto por seda vermelha e adereços de ouro. Levado nos ombros por 12 homens uniformizados com túnicas de brocado e capas, ainda é ladeado por outros dois, carregando leques com penas de avestruz. Por um milênio, papas eleitos (na foto, Pio 12, morto em 1958) eram carregados triunfalmente, como os antigos guerreiros em seus escudos, quando vitoriosos em batalhas. O último Papa a usar a liteira foi João Paulo I, que morreu em 1978, com apenas 33 dias de pontificado.