França se prepara para eleições municipais incertas em ano presidencial

A França entrou nesta segunda-feira (2) na campanha das eleições municipais, uma etapa decisiva com vistas à presidencial de 2027, em um cenário de polarização e fragmentação políticas que tornam incertos os resultados em grandes cidades como Paris e Marselha.

Os dois turnos das eleições locais, previstos para 15 e 22 de março, servirão de termômetro para medir a consolidação local da extrema direita, que lidera as pesquisas para 2027, e a capacidade dos partidos de costurar alianças.

Os acordos partidários se anunciam decisivos em Paris, onde, segundo as pesquisas, até cinco candidatos poderiam chegar ao segundo turno, embora apenas dois tenham chances de suceder a prefeita Anne Hidalgo, do Partido Socialista.

“Em muitas cidades, há uma grande incerteza”, explicou à AFP Mathieu Gallard, diretor de estudos do Ipsos BVA, que aponta a “grande fragmentação do cenário político” e as tensões entre aliados tradicionais como fatores.

A França vive uma profunda crise política desde a antecipação das eleições legislativas de 2024, que deixaram um panorama sem maiorias e dividido em três blocos: esquerda, centro-direita e extrema direita.

– Batalha por Paris –

Paris é um exemplo da conjuntura. Hidalgo decidiu não disputar a reeleição após o desgaste de 12 anos à frente da capital, e a direita vê agora a oportunidade de encerrar um quarto de século de prefeitos socialistas.

Seu ex-braço direito, o deputado socialista Emmanuel Grégoire, lidera as pesquisas do primeiro turno graças ao apoio de ecologistas e comunistas, seguido de perto pela ex-ministra conservadora Rachida Dati.

Mas outros três candidatos podem chegar ao segundo turno: Pierre-Yves Bournazel (centro-direita), Sarah Knafo (extrema direita) e Sophia Chikirou (esquerda radical). Eventuais alianças no segundo turno podem inclinar a balança.

No entanto, por ora, nenhum cede. No abastado 16º distrito da capital, a campanha é intensa entre dezenas de militantes de direita que, com programa em mãos, buscam votos.

No sábado, Knafo, vestida com seu inseparável casaco amarelo, tentava convencer, entre as barracas do mercado de Auteuil, de que representa o “voto útil”, por ser a única a defender a “união das direitas” no segundo turno.

No entanto, Dati pediu no domingo, no jornal Le Parisien, a concentração do voto da direita em sua candidatura já no primeiro turno: “Sou a única que pode derrotar a esquerda”.

– Marselha, rumo à extrema direita? –

Na esquerda, repetir as alianças das legislativas de 2022 e 2024 parece difícil após a morte de um ativista de extrema direita pelas mãos de um grupo antifascista próximo ao partido de esquerda radical França Insubmissa (LFI).

A líder ecologista Marine Tondelier, cujo partido pode perder muitas das prefeituras conquistadas em 2020 em plena pandemia, já adiantou que apresentará “condições” à LFI para uma aliança no segundo turno.

“O que pensam sobre a violência política? Respeitam as instituições republicanas? Consideram que fazer insinuações antissemitas é um problema?”, enumerou, em referência às recentes polêmicas de seu líder, Jean-Luc Mélenchon.

Este último já propôs ao restante da esquerda, que se apresenta unida, uma “fusão técnica” de listas durante o segundo turno nas cidades que poderiam ser vencidas pela direita ou pela extrema direita. Os vereadores da LFI eleitos permaneceriam na oposição.

Marselha, a segunda maior cidade da França, é uma das que poderiam cair nas mãos da extrema direita. O candidato da esquerda unida, o atual prefeito socialista Benoît Payan, descarta qualquer fusão com a LFI, assim como Grégoire em Paris.

A eleição presidencial de 2027, à qual o atual presidente de centro-direita Emmanuel Macron já não pode concorrer, também pesa nas decisões.

O partido de extrema direita Reagrupamento Nacional (RN) vê as municipais como um primeiro passo rumo à “alternância” em 2027, sobretudo porque seus líderes Marine Le Pen e Jordan Bardella lideram as pesquisas.

Para os demais partidos, o pleito servirá para medir o equilíbrio de forças em cada bloco e a possibilidade de firmar acordos.

E, em alguns casos, pode pôr fim às ambições presidenciais de candidatos como o ex-primeiro-ministro de centro-direita Édouard Philippe, caso perca a prefeitura de seu reduto, Le Havre, no oeste do país.

tjc-cl/jvb/lm/am