Fotos de Erika Hilton e Duda Salabert são incluídas em álbum de suspeitas em PE

Deputada mineira afirma que o caso expõe prática transfóbica; parlamentar por São Paulo questiona governo pernambucano

Reprodução / Defensoria Pública do Estado de Pernambuco (DPPE)
Foto: Reprodução / Defensoria Pública do Estado de Pernambuco (DPPE)

Imagens das deputadas federais Erika Hilton (PSOL-SP) e Duda Salabert (PDT-MG) foram incluídas em um álbum de reconhecimento fotográfico da Polícia Civil de Pernambuco. A inclusão ocorreu em um banco de dados apresentado a uma vítima de roubo de celular em Recife (PE). Duda foi alertada pela Defensoria Pública do Estado de Pernambuco (DPPE), que apontou possíveis irregularidades no procedimento.

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No documento enviado a Salabert, a Defensoria afirma ter identificado, “com absoluta perplexidade”, que a fotografia de número um do álbum correspondia à parlamentar. Composto por seis imagens de supostas suspeitas, o material também inclui Erika Hilton na última posição.

Segundo o ofício, o critério de seleção adotado pela polícia teria sido o pertencimento a um grupo identitário de gênero e raça. “A única razão que pode explicar a inserção dessas fotografias no procedimento é o fato de que ambas as parlamentares são mulheres negras e trans, e não qualquer semelhança individualizada com a descrição física da suspeita fornecida pela vítima”, diz o texto.

A Defensoria sustenta ainda que a conduta afronta a dignidade da parlamentar e viola princípios constitucionais como os da igualdade, da não discriminação por cor, raça e gênero e da dignidade da pessoa humana. O órgão também informou que já suscitou a nulidade do reconhecimento nos autos, ressaltando que esse tipo de procedimento irregular pode comprometer a validade da prova, conforme entendimento do Superior Tribunal de Justiça.

Em nota à IstoÉ, a assessoria de Duda Salabert afirmou que o caso expõe uma prática discriminatória e transfóbica. “Não é erro. É estrutura. Esse episódio escancara uma cultura institucional que ainda associa corpos trans e negros à criminalidade”, declarou a deputada.

“O mandato já está adotando todas as medidas necessárias para que o episódio seja apurado e cobrará explicações das autoridades competentes, reforçando que é inadmissível que isso aconteça de forma institucional e envolva parlamentares que historicamente estão na mira do ódio”, completou.

Em uma rede social, Hilton afirmou, nesta quarta-feira, 25, que acionou a governadora Raquel Lyra (PSD), cobrando respostas sobre o motivo de ambas aparecerem no álbum. “Quantos deputados brancos constam no álbum de reconhecimento fotográfico da Polícia Civil de Pernambuco quando o suspeito é um homem branco? Quantas deputadas mulheres cis constam no álbum de reconhecimento fotográfico quando a suspeita é uma mulher cis?”, questionou a deputada. “Isso está colocando gente inocente na prisão, enquanto os verdadeiros criminosos seguem soltos.”

Confira

Em nota à IstoÉ, a assessoria de Erika Hilton confirmou que ela e a vereadora do Recife Jô Cavalcanti (PSOL-PE) acionaram a Corregedoria da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco e o Ministério Público do Estado para uma rigorosa apuração após a inclusão indevida das imagens.

A nota ainda afirma que, para as parlamentares, o episódio revela uma falha grave na atuação policial, com possível abuso de autoridade e violação de direitos fundamentais, e motivou o pedido de responsabilização dos envolvidos nas esferas administrativa, civil e penal, além da revisão dos protocolos de reconhecimento para evitar novas práticas discriminatórias.