Fotografia cartográfica

Obra de Caio Reiseiwtz informa sobre décadas de crise ambiental e florestal

Crédito: Divulgação

Upurupa, 2020, obra de Caio Reisewitz (Crédito: Divulgação)

Foi assim em Altamira (2014). Foi assim em Jaraguá (2014). Foi assim em Transposição (2012), o projeto sobre a obra de deslocamento das águas do Rio São Francisco. Um vasto repertório de produção cultural e ideológica sobre determinado espaço (ou paisagem) informa o trabalho de campo de Caio Reisewitz: cartografias, fotografias aéreas, imagens de satélite, de arquivo, históricas e outros documentos..

Um mapa de focos de incêndios compõe o repertório de referências da exposição Recado da Mata, na galeria Joan Prats, em Barcelona. O Brasil teve, em 2020, o maior número de queimadas em uma década, subindo 15% em relação ao ano anterior. Implícito nesse mapa do fogo – e como pano de fundo da pesquisa que Reisewitz vem realizando há duas décadas sobre as relações entre as florestas e as cidades – há um mapa da devastação. Em 2020, o desmatamento da Amazônia brasileira atingiu sua maior marca em 12 anos, e mais de 95% dele é ilegal, resultado da demanda mundial por carne bovina, soja, ouro e outras commodities.

É possível intuir, ainda, um mapa da desigualdade social na base da fotomontagem Tipióca (2017), em que vegetais são atravessados por espectros do Palácio do Planalto, da fachada de outro edifício moderno e de uma moradia de periferia – fragmentos que evidenciam nossos abismos.

A distopia brasileira se expressa em dados da saúde pública e saneamento básico, levantados ainda antes da crise do coronavírus, que mostram, entre os dez municípios brasileiros menos abastecidos pelo atendimento urbano de água, três capitais da região Norte: Porto Velho, Macapá e Rio Branco. O nonsense é que as três regiões mais carentes em água tratada pertencem à Amazônia, onde está um quinto da reserva de água potável do planeta e 45% de toda a água subterrânea do Brasil.

Mesmo que a figura humana não seja sempre discernível nos trabalhos de Caio Reisewitz, a interferência do homem sobre a paisagem natural nos é informada por sua fotografia. Os mapas do fogo, do desmatamento e da desigualdade estão entranhados na construção das imagens. A cicatriz na mata para a construção da estrada, o lixo, a fumaça nos dizem que a obra do artista é sobre conflito; sobre crise social. Conflitos de interesses, de visões de Amazônia, de visões de mundo. A visão dos governos democráticos, que repete a visão da ditadura militar (1964-1985), que repete a visão do colonizador. Visões em conflito com cosmovisões de povos originários.

Fala-se do fim do mundo

Em 2008, quando os antropólogos Eduardo Viveiros de Castro e Debora Danowski escreviam sobre o medo do fim e se perguntavam se havia mundo por vir, Reisewitz refletia sobre as tensões sociopolíticas atuando na natureza. Por meio de fotografias de pastos, boiadas, campos de golfe, campos lavrados e acampamentos de trabalhadores sem terra, o artista propunha indagações acerca da construção de outras-realidades.

Até mesmo as florestas são realidades construídas. Conta-se que, quando aqui aportaram as caravelas, a floresta amazônica tinha mais de 20 bilhões de árvores. Mas não era natureza intocada. Era fruto da relação harmônica e simbiótica entre as sociedades originárias com a terra e com o cosmos. A floresta amazônica é um exemplo vivo da potência que pode ser gerada da integração entre natureza e civilização.

Nada a ver com a ocupação irregular e exploratória que assistimos na região. Aquela que se infiltra clandestinamente, como o aglomerado de arranha-céus que se esconde por entre as folhagens, na fotomontagem

Joaçaba (2010). No ano de realização da obra, o Censo Demográfico brasileiro havia registrado na Amazônia Legal um crescimento populacional de 20% em dez anos; enquanto, no mesmo período, a média nacional tinha sido de pouco mais de 1%.

Hoje contabilizamos 20% da floresta destruída e a Amazônia se aproxima de um ponto irreversível. Somos advertidos que uma elevação de mais 5% no nível de desmatamento pode deflagrar uma retração florestal nos encaminhando para a desertificação. Em um cenário de forest dieback na bacia amazônica, o equivalente a uma década de gases causadores do efeito estufa seria liberado na atmosfera do planeta. A floresta perderia sua capacidade de absorver bilhões de toneladas de dióxido de carbono, prejudicando os ciclos hidrológicos, a evapotranspiração e as correntes oceânicas.

O colapso ambiental nos levaria ao colapso hidrelétrico, agroindustrial e às consequências sociais catastróficas de uma economia de mercado desenfreada. Perda de diversidade, queda do nível do lençol freático, cidades inabitáveis, fim das sociabilidades, fim do mundo.

Na Cúpula de Líderes Sobre o Clima, organizada na semana passada pelos EUA, avisaram que só impediremos esse desfecho se chegarmos ao desmatamento zero em 2030.

E se em oito anos tudo se invertesse?

E se a mata cobrisse as cidades? E se o monumento fosse restaurável?

Imaginemos outro mapa. Um mapa-múndi em que o Brasil é representado como a maior área do planisfério, enquanto, ao contrário, os países do Hemisfério Norte, que sempre foram dominantes na cartografia ocidental, praticamente desaparecessem.

Este não é um mapa imaginário, como a maior parte daqueles produzidos entre os séculos 17 e 19, pelos cartógrafos viajantes que vinham buscar imagens que correspondessem às descrições de seu paraíso bíblico ou de suas fantasias mitológicas.

Esse desenho em que o território brasileiro está ampliado não é uma hipótese, ou a projeção de uma fantasia delirante-ufanista-terraplanista-negacionista, como a que nos tem assombrado hoje. Ele é a projeção visual de dados científicos: o Brasil corresponde à área planetária em que a luz, a água e o ar são predominantes, é simplesmente o território onde mais se produz e concentra vida no planeta.

Com a natureza como questão central, a fotografia de Caio Reisewitz não transita entre noções conflitantes de paraíso e inferno. Dicotomias não cabem aqui. Reisewitz é um dissidente do sistema verdade-mentira/ distopia-utopia/ natureza-cultura.

Em 2013, ele elaborou uma série de trabalhos para uma edição da revista seLecT que dedicamos às visões de paraíso (https://www.select.art.br/edicao/edicao-10/). A partir de um sobrevoo nas periferias da cidade de São Paulo, com suas ocupações irregulares em áreas de preservação ambiental, o artista discerniu – dentro daqueles bolsões de pobreza – bairros com nomes paradisíacos, como Cantinho do Céu, Jardim Sangrilá, Eldorado, Vila Califórnia.

Essa série de trabalhos que trazem a periferia como potência poderia guardar outra reminiscência cartográfica: os mapas europeus que, no século 16, transferiram para o Brasil o mito bíblico dos “quatro rios do Paraíso”. Segundo esses mapas, o “Lago do Paraíso” se situava bem no coração do Brasil e dele nasciam quatro rios, entre eles, o Amazonas, o Prata e o São Francisco.

Essa cartografia fez do Brasil um mito geográfico, entremeado à lenda do El Dorado. O grande lago de fato existia e, mais tarde, foi denominado pelos portugueses de Pantanal. Quando, em 1719, finalmente encontraram ouro em Cuiabá, encerrou-se ali um ciclo de dois séculos de especulação e violência[1]. Mas o ciclo exploratório permanece, e se transfere, até hoje, de mapa em mapa, de território em território, no Brasil. Sobre esses ciclos a fotografia cartográfica de Caio Reisewitz informa.

[1] CALDEIRA, Jorge. Brasil, Paraíso Restaurável. Rio de Janeiro: Estaçao Brasil, 2020. Pg 54

 

 

 


Sobre o autor

Paula Alzugaray é curadora, critica de arte e editora da revista seLecT. Pós doutoranda em História, Crítica e Teoria da Arte na ECA USP. É autora do livro "Regina Vater: Quatro Ecologias" (Oi Futuro/Fase 3, 2013) e dos documentários “Tinta Fresca” (2004), prêmio de Melhor Media Metragem na 29ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e de "Shoot Yourself" (2012), Prêmio em Poéticas Investigativas, no Cine Move Arte 2012.


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