Fórum Econômico Mundial começa com pauta dominada por Trump

Fórum Econômico Mundial começa com pauta dominada por Trump

"TrumpReunião anual com a presença de líderes de governo encara os desafios de um novo cenário geopolítico e das turbulências geradas pelo presidente americano.A cidade de Davos, nos Alpes suíços, recebe mais uma vez a nata do mundo político, econômico e cultural para a reunião anual do Fórum Econômico Mundial .

O evento ocorre num momento em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, busca desmantelar a ordem internacional com uma sequência sem precedentes de movimentos: a revogação de regras comerciais, a retirada em massa do país de organizações internacionais – incluindo o tratado climático da ONU –, a captura de Nicolás Maduro após um ataque a Caracas e a ameaça de anexar a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca.

O ataque de Trump às regras internacionais que estão em vigor desde a Segunda Guerra Mundial e seu impacto na paz, na política e na economia globais certamente estarão entre os principais temas do evento de cinco dias que começa na segunda-feira (19/01), com o tema "Um espírito de diálogo".

"O diálogo não é um luxo em tempos de incerteza; é uma necessidade urgente", disse Borge Brende, presidente e CEO do Fórum Econômico Mundial. "Em um momento crítico para a cooperação internacional — marcado por profundas transformações geoeconômicas e tecnológicas —, a reunião deste ano será uma das mais importantes."

Trump estará acompanhado por mais de 60 chefes de Estado e de governo, incluindo o chanceler federal alemão, Friedrich Merz, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, o presidente argentino, Javier Milei, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng, o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, e o líder sírio, Ahmad Al Sharaa.

EUA enviam sua maior delegação

Trump lidera a maior delegação já enviada pelos EUA para Davos, composta por cinco ministros de Estado e outros altos funcionários.

A comitiva inclui o secretário de Estado, Marco Rubio, o enviado especial Steve Witkoff e o genro de Trump, Jared Kushner, preparando o terreno para discussões de alto nível sobre a Ucrânia, a Venezuela, Gaza e o Irã, cuja repressão brutal aos protestos antigovernamentais em curso matou milhares de pessoas , segundo testemunhas e estimativas de entidades de direitos humanos.

À margem do evento principal, Trump deve se reunir com o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski , e aliados de Kiev sobre garantias de segurança para a Ucrânia após um possível acordo de paz com a Rússia , segundo informou o Financial Times. Devem integrar essas rodadas de discussão líderes de Alemanha, Itália, França, Reino Unido, Canadá e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

A forte presença dos EUA será complementada pela primeira "Casa dos EUA" — uma representação do país instalada numa pequena igreja na rua principal da cidade, onde autoridades americanas realizarão eventos e receberão investidores.

Guerra geoeconômica

Embora se espere que as turbulências geopolíticas e o consequente cenário de incerteza dominem as discussões, os formuladores de políticas e líderes empresariais devem aproveitar o momento para discutir também maneiras de lidar com outros desafios que a economia global enfrenta.

O crescimento mundial projetado de 3,1% para 2026 é considerado baixo, especialmente num momento em que a dívida global atingiu níveis nunca vistos desde a Segunda Guerra Mundial. A situação da dívida em vários países africanos é especialmente preocupante, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

O comércio global continua sob pressão, à medida que os países adotam políticas cada vez mais protecionistas, como a imposição de tarifas unilaterais, o aumento de restrições ao investimento estrangeiro e o endurecimento do fornecimento de minerais essenciais.

O confronto econômico entre nações e suas consequências lideraram o Relatório de Riscos Globais anual do fórum, divulgado na quarta-feira (14/01).

Desafios e oportunidades da IA

A Inteligência Artificial(IA) é outro tema central do encontro deste ano, com vários eventos e palestras dedicados à tecnologia. Líderes do setor, como Satya Nadella, da Microsoft, Jensen Huang, da Nvidia, e Demis Hassabis, chefe de IA do Google, estarão no evento.

A IA tem se mostrado promissora em áreas como medicina e educação e recebeu trilhões de dólares em investimentos realizados ou prometidos nos últimos anos, embora muitas empresas enfrentem dificuldade em encontrar aplicações práticas para a tecnologia que realmente ofereçam um bom retorno.

Há preocupações sobre o impacto dela nos empregos, muitos dos quais se tornarão dispensáveis nos próximos anos. O CEO da Anthropic, Dario Amodei, um dos participantes deste ano, afirma que a IA pode eliminar metade de todas as vagas de nível básico nos próximos cinco anos, ressaltando a necessidade de investimentos maciços em requalificação profissional.

A IA corre o risco de agravar a exclusão digital existente, com os países mais pobres não conseguindo aproveitar as oportunidades. Há também preocupações sobre os modelos de IA perpetuarem preconceitos existentes, espalharem desinformação e gerarem deepfakes.

Desinformação e cibersegurança estão entre os principais riscos globais, de acordo com a pesquisa de riscos do fórum, ressaltando a necessidade de regulamentações eficazes.

Nova liderança no Fórum Econômico Mundial

A reunião deste ano será a primeira sem o fundador da cúpula, Klaus Schwab, no comando. O economista nascido na Alemanha renunciou em abril de 2025, em meio a alegações de que ele e sua esposa teriam usado fundos da organização para benefício próprio. Uma investigação independente, no entanto, não encontrou nenhuma conduta criminosa, mas algumas irregularidades.

Schwab foi sucedido pelos copresidentes interinos Larry Fink, CEO da BlackRock, e Andre Hoffmann, vice-presidente da empresa farmacêutica suíça Roche Holdings.

A forte participação deste ano é um impulso para a cúpula após um ano tumultuado. A organização, que existe desde 1971 para promover o diálogo, agora enfrenta ventos contrários, à medida que o multilateralismo perde força, e o livre comércio é alvo de críticas.