Fora técnicos!

Crédito:  Adriano Machado

(Crédito: Adriano Machado)

Para se dar bem com o capitão Bolsonaro não seja um técnico. Especialista no assunto. Ele não gosta disso. Professe pela cartilha dele. Não o ofusque. Se não, já viu! Terá dias de inferno no governo. Tempos atrás, um dos maiores conhecedores do tema ambiental, reconhecido inclusive mundialmente e responsável pela direção do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Ricardo Galvão, foi defenestrado do cargo por divulgar dados do avanço recorde de desmatamento no País, maculando uma gestão federal que, já se sabia, sem o menor interesse no assunto. Bolsonaro não perdoou. Determinou ao ministro Marcos Pontes, da Ciência e Tecnologia, que o mandasse literalmente para o espaço. Dito e feito. Com o chefe de fiscalização do Ibama, Olivaldi Azevedo, a mesma coisa. Dias atrás, ele disparou uma megaoperação que flagrou garimpeiros e madeireiros explorando e queimando ilegalmente terras indígenas no sul do Pará. Que petulância denunciar os amigos do “rei”! Incinera ele. Manda o sujeito pra rua! Fiscais não estão ali para fazer o que manda a lei. Tem de obedecer ao chefe do Planalto que enxerga os índios como animais, talvez um dia convertidos a seres humanos como nós. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, deu andamento à missão de serrar a cabeça do funcionário competente. Não é para isso que o tal fiscal Azevedo estava lá, afinal. E assim caminha a área ambiental, de desmonte em desmonte. Vire a página. Concentre-se na Cultura, para um olhar mais idílico das peripécias do capitão. Ali, a atriz Regina Duarte tomou posse antes da Covid-19 e quis mostrar seus pendores de especialista. Levou um cala a boca rapidinho. O Planalto começou por desautorizar suas nomeações e a proibiu de afastar quadros ideologicamente sintonizados com o monarca brasiliense. A atriz aquiesceu. Dada a entender as preferências do mandatário e disposta a permanecer onde está, submergiu. Nem as estrelas Sergio Moro e Paulo Guedes foram poupadas. Os dois, além do vice-presidente general Hamilton Mourão, também já sentiram o peso da paranoia presidencial. O capitão não cede os holofotes. Não quer o protagonismo de mais ninguém além do dele. O ciúme narcísico, a inveja desmedida pautam as deliberações de Jair Bolsonaro. A ideia de que é o senhor de tudo e somente a ele cabem os louros dos resultados está na essência de suas reações. Coisa de psicopatia. As recentes brigas com os governadores estaduais não carregam outra motivação que não a de ser do contra, resistente e mostrar que apenas ele é o dono da verdade, contra tudo e todos. O mundo inteiro vai numa direção? Bolsonaro, evidentemente, segue na outra. Acaba de ser classificado pelo jornal “The Washington Post” como o pior líder global a lidar com o coronavírus. “Que ótimo!”, deve ter pensado. O paspalhão acha mesmo divertido e autopromocional a fixação na sua figura, mesmo que na imagem de um pária. Vai morrer gente, e daí? Danos colaterais. O que vale é a minha verdade. Luiz Henrique Mandetta foi a mais recente e notória vítima dessa patologia egocêntrica. Começou a aparecer. Mostrou responsabilidade e qualidade dignas de um líder nesse momento de drama e pandemia, soube orientar e ganhar a confiança da população. Não podia ter outro destino. Forca para ele. O aloprado mandatário da República não descansou um dia até que seu auxiliar estivesse exposto para a decapitação implacável. Típico de tiranos. Bolsonaro admira todos que assim agem. Para Messias, o absolutismo autocrata é a melhor expressão de poder. Um País inteiro e seus melhores quadros estão à mercê dessa insanidade por que ela agora emana direto do Planalto. O “mito” de araque sonha com a condição de comandante perpétuo. Não fossem esses pendores já naturalmente deploráveis e desprezíveis para alguém que dirige uma república que se pretende democrática, o lado galhofeiro e irresponsável do titular do Palácio, que confraterniza e afrontosamente tripudia das leis de isolamento, já deveriam levá-lo a prestar contas na Justiça. Ou a lei a ele não cabe? Bolsonaro aperta a mão dos incautos enquanto limpa o nariz, frequenta padaria, farmácia, faz visitas politiqueiras, arrasta o povo às ruas enquanto promove a anarquia, dizendo que está na hora de acabar com a quarentena, e nada acontece? Está previsto no Código Penal, no capítulo que trata dos “crimes contra a saúde pública”, no artigo 268 sobre infrações a medidas sanitárias preventivas, que é afronta penal “infringir determinação do poder público destinada a impedir a introdução ou a propagação de doenças contagiosas”. A deliberação está posta. Foi o próprio ministro da Justiça, Sergio Moro, quem anunciou que era proibido romper com a quarentena. Na portaria, elaborada em parceria com a pasta da Saúde, está prevista até a prisão. Não deve valer para um soberano, naturalmente. Exibicionista ao extremo, ele quis humilhar o seu ministro Mandetta quando apareceu serelepe nas ruas, contrariando a orientação de que todos deveriam permanecer em casa. A esse ponto, o próprio Mandetta não se fez de rogado e em entrevista reclamou: “o povo não sabe se escuta o ministro ou o presidente”. Na verdade, ninguém deveria dar ouvidos ou levar a sério o que fala e aponta um inquilino presidencial que se recusa a aprender com os desastres verificados na Itália, na Espanha e nos EUA e que sai em provocações imaturas de autoridade. Bolsonaro, há algumas semanas, quando se referia ao coronavírus como uma “gripezinha ou resfriadinho”, que não lhe acometeria por seu “passado de atleta” — todos lembram! —, apontou também que no Brasil a pandemia não alcançaria sequer 800 mortos, bem menos, segundo ele, que a epidemia anterior do H1N1. Pois o número já se aproxima de três mil vítimas fatais, superando a soma de todas as demais moléstias respiratórias sazonais, com potencial de atingir 15 mil pessoas, caso as medidas sanitárias de isolamento não sejam levadas a sério. Ficar nas mãos de um irresponsável, que nos seus arroubos infantis e pretensiosos se acha no direito de conclamar a população à desobediência civil, é flertar com o caos. O presidente, como bem alertou o magistrado do Supremo Gilmar Mendes, não pode adotar uma política genocida. Mas é exatamente isso o que ele vem propondo, nos últimos dias, com uma frequência desconcertante. Quem e quando lhe colocará os freios necessários? Já passa da hora. Os “achismos” do presidente seguem confrontando a ciência e derrubando os especialistas técnicos da equipe. Em dado momento, restará apenas o batalhão de irracionais convertidos a seguirem seus disparates.


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