Brasil

Foi por pouco

Entre todos os brasileiros já indicados para o Nobel da Paz, o cacique Raoni é o que tinha maiores chances de ganhá-lo. O Brasil nunca esteve tão visível para o mal nas questões indígena e ambiental, enquanto ele nunca esteve tão visível para o bem do planeta

Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

RESISTÊNCIA Enquanto o governo federal promove a extinção das florestas e dos povos indígenas, o trabalho de Raoni torna-se cada vez mais visível: luta reconhecida em todo mundo (Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil)

O Prêmio Nobel da Paz existe há cento e dezenove anos, instituído pelo sueco Alfred Nobel, um milionário fabricante de armas – no ano de estreia de 1901 foi concedido à dupla formada pelo francês Frederic Passe e o suíço Jean-Henri Dunant – o primeiro pregava a redução dos exércitos em todo o mundo, o segundo ajudou a fundar a entidade filantrópica Cruz Vermelha. O tempo voou e o Brasil sempre teve diversos indicados, mas nenhum deles reuniu tantas possibilidades de ser laureado como o cacique Raoni Metuktire.

PROJEÇÃO Ao lado do cantor Sting (à esq.), Raoni percorreu dezessete países sem nunca esquecer sua cultura (à dir.): símbolo de uma etnia (Crédito:Ricardo Chaves/AE | Carl de Souza/AFP)

Desde 1989, quando percorreu dezessete países ao lado do cantor Sting, falando sobre a importância de se preservar a Amazônia e tratar com dignidade os indígenas, o cacique se tornou um símbolo dessas causas. No Brasil, seu trabalho é de Sísifo: a rigor, nenhum governo levou suficientemente a sério as duas questões. A diferença é que agora a coisa piorou com a turma da pirotecnia na mata e da motosserra nas árvores habitando o Planalto: a pedra de Sísifo está maior e mais pesada ainda, e Raoni intensificou a sua luta passando por cima até de suas próprias doenças, mazelas normais que achacam um corpo que já entra nos 88 anos de idade. O mundo civilizado olha estarrecido para um governo, o de Jair Bolsonaro, que incentiva as queimadas e a ocupação ilegal de terras indígenas. Em decorrência disso, o mundo também olha, e com muito bons olhos, para Raoni.

Castanheiras no chão

Como se vê, portanto, nunca um brasileiro esteve tão perto de ser agraciado com o Nobel da Paz — e, lembremos, já tivemos como indicados, entre outros, o incansável arcebispo emérito de Olinda e Recife, dom Hélder Câmara (por quatro vezes), devido ao seu voto de pobreza e à batalha cotidiana a favor dos desvalidos. Os militares, aqueles da ditadura, preferiram chamá-lo de comunista, algo bem normal para um regime que aplaudia a derrubada de castanheiras em Altamira visando à construção da Transamazônica.

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Os militares caíram na vala comum do ostracismo, Raoni, que já na época os criticava, possui o reconhecimento mundial. Até a ambientalista dinamarquesa Greta Thunberg, que concorria ao prêmio, declarou que torcia pelo cacique. E um membro do comitê do prêmio endossou tal torcida. Na juventude, Raoni não reconhecia que a floresta estava em mãos de pessoas ruins, mas aí veio o contato com os irmãos Villas-Bôas, pioneiros na causa, e a chama acendeu. Com a proximidade de Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Bôas, o kaiapó ganhou consciência política (ele e Ailton Krenak são os únicos indígenas vivos que participaram da Constituinte) e aprendeu português para gritar pelo seu povo.

O tempo anda e o grito ecoa nos quatro cantos da Terra, tão alto e tão forte e tão justo que chegou aos ouvidos de pessoas com peso internacional como o Papa Francisco, o presidente da França, Emmanuel Macron, e o rei da Bélgica, Leopoldo III. E, não esqueçamos, 2020 cobrou-lhe hercúlea força: Raoni teve de amplificar a briga para salvar seus tantos I-Juca Pirama, não da captura pelos timbiras, como diz o maravilhoso poema de Antônio Gonçalves Dias, mas das mãos dos brancos que por ora se obsoletam no Planalto e arrasam etnias. Mais: a Covid-19 pegou Raoni. Ele foi internado, felizmente sobreviveu. “O prêmio Nobel da Paz para ele seria muito importante nesse momento de retrocessos que estamos vivendo em nossa democracia”, diz a conceituada pesquisadora do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará, Marcela Gonçalves. “Ele acaba sendo uma expressão muito forte da chamada diplomacia indígena”.

Enquanto Jair Bolsonaro faz o País passar vergonha em todo o mundo, o cacique dá a vida para manter de pé as florestas, conquistando projeção que nenhum outro brasileiro já havia alcançado para o Nobel. O Brasil nunca esteve tão visível para o mal e a estultícia nas questões indígena e ambiental; em corolário e num encadeamento dedutivo, Raoni nunca esteve tão visível para o bem de todo o planeta.

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