Internacional

Fogo cruzado

Ditador da Belarus fomenta crise humanitária com refugiados na fronteira com a Polônia. A Rússia está por trás de um plano para pressionar a Europa pela liberação de um novo gasoduto

Crédito: Leonid Shcheglov

DRAMA Refugiados em Grodno (Belarus), na fronteira com a Polônia. Vladimir Putin (abaixo) nega interferência, mas Alemanha suspendeu gasoduto (Crédito: Leonid Shcheglov)

Ramil Sitdikov

Denunciado por fraude nas eleições de 2020, o ditador da Belarus, Aleksandr Lukashenko mantém a população sob rédeas desde 1994. Com poderes praticamente ilimitados após reformar a Constituição, ele é motivo de protestos frequentes que resultam em prisões, tortura e acusações de assassinato de inimigos. Agora, o chamado “último ditador da Europa” acendeu uma fogueira em seu próprio país. Está usando a crise migratória de refugiados do Oriente Médio para fustigar a União Europeia, atuando em favor do presidente russo, Vladimir Putin.

Em outubro, Lukashenko incentivou 11,3 mil tentativas de entrada ilegal de refugiados na Polônia via Belarus. E 4,9 mil na Alemanha, vindos da Polônia e da Belarus, número que duplicou em um mês. Seu aliado russo nega estar por trás de um complicado plano de usar os refugiados como forma de pressão pelo aumento de poder sobre o mercado energético da UE. Hoje, a Rússia fornece 40% do gás consumido pelos europeus. Além dos milhares de imigrantes — principalmente iraquianos, mas também refugiados da Síria, Congo e Camarões — incentivados a chegar à Belarus para alcançar a Alemanha, Lukashenko ameaça cortar o gás natural russo que passa por gasodutos em seu país, deixando sem combustível os países europeus. O bloco, por sua vez, subiu o tom e ameaça a Belarus com sanções.

O conflito tem a Rússia como pano de fundo. Putin nega o objetivo de pressionar a Alemanha a licenciar o NordStream 2, o novo gasoduto que será fonte barata e vital de energia para o bloco. Ele sai da região de Leningrado e segue por quase mil quilômetros até se dividir em três em território alemão, de onde podem ser feitas conexões com os outros países. O presidente russo também nega a colaboração de Lukashenko nessa estratégia. Mas o ditador da Belarus assumiu a linha de frente da crise. Visto como responsável pela abertura do país aos imigrantes, ele é pivô de uma crise humanitária. Milhares seguem em uma zona turbulenta, sem permissão de entrada por parte dos poloneses. Na quinta-feira, 11, Lukashenko insinuou que poderia cortar o trânsito de gás se seu país sofresse sanções.

Por meio de seu porta-voz, Putin afirmou que a Rússia continuará a fornecer gás aos europeus e disse que quaisquer ameaças do colega quanto aos cortes significariam rompimento de acordos com a Belarus. Ainda assim, a Alemanha suspendeu a certificação do NordStream 2 — pronto desde setembro e que dá à Rússia chance de conseguir maior autonomia frente aos gasodutos que passam pela Belarus e pela rival Ucrânia. Para o licenciamento, a Alemanha exige que toda a operação seja de uma empresa que se submeta às leis do país e deu quatro meses para os russos regularizarem a situação. As dificuldades de legislação criadas por esse imbróglio teriam gerado a estratégia de pressão com imigrantes. Os EUA acusam a Rússia por esse plano, que mobiliza exércitos dos dois lados das fronteiras.

A União Europeia entende que o ditador da Belarus está “instrumentalizando seres humanos para fins políticos”

Medindo forças

A União Europeia também entende que a crise é uma resposta de Lukashenko ao não-reconhecimento das eleições de 2020. O ditador estaria “instrumentalizando seres humanos para fins políticos”. Entre as sanções debatidas estão penalidades a indivíduos, como agentes de viagens, ou companhias aéreas que estejam colaborando no trânsito ilegal. A maioria dos refugiados compra o sonhado acesso à UE a partir de voos saindo de três cidades curdas no Iraque, mas também de Dubai, Turquia, Síria, Líbano. Amã e Ucrânia. O anúncio de sanções trouxe resultados imediatos. O governo do Iraque se manifestou pela organização de um primeiro voo de repatriação, a partir da Belarus. Lukashenko tentou contemporizar, dizendo que está sendo feito um trabalho na fronteira “para convencer as pessoas a voltarem para casa, mas ninguém quer voltar”.

A crise humanitária fez a Polônia declarar estado de emergência, assim como a vizinha Lituânia. Não há mais fronteira aberta — arames farpados foram colocados, assim como câmeras para vigilância diurna e noturna. Há limitação de comida, água e remédios, enquanto a temperatura cai com a aproximação do inverno. Há denúncias de espancamentos e prisões feitas por voluntários de organizações humanitárias. O drama ainda atiça conflitos dentro do bloco europeu. O governo de direita polonês é cobrado pela violação de princípios da UE e, ao mesmo tempo, por pregar ataques à Rússia dentro da Otan.

Além de fomentar atritos na Europa, a Rússia provoca tensão na fronteira com a Ucrânia, que procura aderir à Otan. Putin enviou tropas à região, mas nega a intenção de invadir novamente o país vizinho. Os EUA já alertaram para o russo não “repetir o erro de 2014”, assim como fez o presidente francês, Emmanuel Macron. Jogo de cena ou não, fato é que um terço do gás consumido na Europa provém da Rússia e as incertezas aumentaram o preço do combustível em mais de 20%, justamente no momento de retomada econômica pós-pandemia. Vítimas do fogo cruzado que envolve interesses econômicos e políticos, milhares de refugiados se amontoam desesperados.