Por Rodrigo Campos

NOVA YORK (Reuters) – Ainda há muita incerteza sobre o caminho da política econômica da Argentina para tornar a dívida do país sustentável, disse uma autoridade do Fundo Monetário Internacional (FMI) nesta quinta-feira.

“Sempre há pelo menos duas etapas para qualquer reestruturação. Uma é como você altera os termos de seus contratos de dívida, a outra é como você altera suas políticas para tornar a nova dívida sustentável. E acho que essa segunda etapa é onde temos um muita incerteza”, disse Alejandro Werner, chefe do FMI para o Hemisfério Ocidental.

A Argentina e o FMI estão em negociações para substituir um fracassado programa de 2018 pelo qual o país sul-americano deve ao Fundo cerca de 45 bilhões de dólares.

Inicialmente, o FMI e o governo esperavam um acordo entre abril e maio, mas ambos abandonaram qualquer referência a esse cronograma.

Investidores projetam que um acordo não será alcançado antes das eleições legislativas no fim de outubro, à medida que a dívida externa argentina em dólar está sendo negociada em níveis problemáticos, cerca de 30 centavos por dólar.

“Estamos trabalhando para estarmos prontos na hora que o governo realmente quiser finalizá-lo e acelerá-lo. Acho que estamos em condições de fazê-lo, mas é verdade, é óbvio que as negociações têm se arrastado mais do que talvez pensássemos”, disse Werner em um evento organizado pela S&P Global.

As negociações, ambos os lados disseram, continuam a ser “construtivas”.

No fim do mês passado, o ministro da Economia, Martín Guzmán, disse que “passos importantes” foram dados para avançar com as negociações, dias depois de a vice-presidente do país, Cristina Fernández, dizer que a Argentina não tinha dinheiro para honrar seus compromissos com o FMI.

Werner reconheceu que o FMI vê uma divisão dentro governo argentino.

“Parece haver diferenças significativas de opinião entre os aliados políticos do presidente (Alberto) Fernández sobre a direção que devem seguir, tanto em termos de política quanto em relação às negociações com o Fundo”, disse.

O Ministério da Economia da Argentina não fez comentários, disse um porta-voz.

Alguns dos credores privados com os quais a Argentina fechou um acordo de reestruturação no ano passado têm reclamado da lentidão das negociações, de como o acordo se tornou uma questão política e da falta de uma política econômica clara do governo.

“Em ano eleitoral, que agora também passa a ser um período em que o ambiente externo é favorável às contas financeiras da Argentina… há uma interpretação do nosso lado de que talvez o governo sinta que (será) muito melhor empreender esta negociação política depois das eleições do que antes”, afirmou Werner.

A Argentina está lutando contra uma segunda onda de infecções por Covid-19, com número recorde de novos casos nos últimos dias, embora o governo esteja procurando evitar lockdowns generalizados para blindar a recuperação econômica que ainda está em estágio inicial.

Também há preocupações de que a inflação já elevada possa aumentar ainda mais, apesar das esperanças do governo de conter os preços, o que afetaria o crescimento econômico.

(Reportagem de Rodrigo Campos; reportagem adicional de Eliana Raszewski em Buenos Aires)

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