Edição nº2606 06/12 Ver edições anteriores

Flex total

Trump sonha, Bolsonaro faz e a lei nasce. Mas será que o amor entre ambos corresponde ao amor dos Estados Unidos pelo Brasil?

Essa história é um foco de incêndio, mas não na Amazônia. A floresta parou de arder logo depois da reunião dos países do G7, repararam? Já esse nosso episódio é de alto teor alcoólico e nada tem de anônimo.

Em uma ação que beneficia diretamente os exportadores norte-americanos, o governo brasileiro decidiu, no último dia de agosto, um sábado, aumentar em 150 milhões de litros a cota de importação de etanol com isenção da tarifa de 20%, indo de 600 para 750 milhões de litros.

A mídia conta a história tão crua quanto é. Aqui abro aspas. A medida vai vigorar por 12 meses e atende a um pedido feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em março deste ano, durante a visita do presidente Jair Bolsonaro àquele país. O governo brasileiro, porém, sinalizou que a expansão poderia ser autorizada, desde que Washington, em contrapartida, abrisse o mercado americano para o açúcar — o que ainda não aconteceu. Fecho aspas.

Depois tem mais uma aspas. — A medida desagradou os produtores de etanol do Nordeste. O presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool do Estado de Pernambuco, Renato Cunha, destacou que, há cerca de dois anos, o governo federal assumiu o compromisso com os produtores de que a isenção de 600 milhões de litros por ano não seria renovada, o que diria ampliada — Fechar. Mas há dois anos, o mundo e o Brasil eram outros, não?

Últimas aspas, prometo — Coincidentemente, a decisão de aumentar a cota não tributada com o Imposto de Importação foi tomada no dia seguinte a uma reunião na Casa Branca entre Donald Trump, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, o assessor para assuntos internacionais da Presidência da República, Filipe Martins, e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) — Tudo fechado.

Se Donald Trump não estivesse em corrida eleitoral e Eduardo Bolsonaro não quisesse tanto ser embaixador nos Estados Unidos, essa história não passaria de um coquetel de classe média, mas como não é, dá o que pensar. Até porque será muito mais vantajoso para os Estados Unidos aceitar — e apoiar — a ida do filho Zero Três para a América do que deixar entrar açúcar brasileiro via Miami.

Tão simples assim? Pode ser. As histórias mais simples são sempre as mais prováveis. E se até o Winston Churchill — tinha mais aspas — tirou mais do álcool do que o álcool tirou dele, aqui no Brasil também queremos tomar um drinque, né?

O aumento da cota isenta de etanol dos EUA ainda não gerou contrapartida nas exportações. Nessa, só Zero Três se deu bem


Sobre o autor

José Manuel Diogo é autor, colunista, empreendedor e key note speaker; especialista internacional em media intelligence,  gestão de informações, comunicação estratégica e lobby. Diretor do Global Media Group e membro do Observatório Político Português e da Câmara de Comércio e Indústria Luso Brasileira. Colunista regular na imprensa portuguesa há mais de 15 anos, mantém coluna no Jornal de Notícias e no Diário de Coimbra. É ainda autor do blog espumadosdias.com. Pai de dois filhos, vive sempre com um pé em cada lado do oceano Atlântico, entre São Paulo e Lisboa, Luanda, Londres e Amsterdã.


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