Edição nº2594 13/09 Ver edições anteriores

Flertando com o precipício

A maioria das pessoas não sabe como a economia funciona. Todavia, todos sabem como está a sua própria situação financeira e se houve melhora ou piora. É esta percepção que define a maioria das eleições para presidente, que costumam ser um referendo para quem está no poder. Entendendo essa lógica, fica fácil compreender o resultado das primárias na Argentina, que indicam a provável vitória da chapa peronista de Alberto Fernández e Cristina Kirchner em outubro. Uma vitória deles só empurrará aquele país para uma crise econômica ainda mais grave.

Mas por que os argentinos estão votando contra Macri? O desempenho econômico deixou a desejar e a situação financeira da maioria piorou. Macri foi parcialmente responsável. Se tivesse sido mais rápido para liberalizar a economia e adotado medidas de estímulo de curto prazo mais agressivas, os resultados seriam outros.

Porém, mais importante do que aquilo que Macri não fez foram as condições que herdou de Cristina Kirchner. Imagine que você emprestou sua casa para um amigo. Ele praticamente a destruiu, mas com toda a decoração e mobília, não deu para perceber o tamanho do estrago. Quando ele saiu da casa, entrou outro amigo que encontrou um monte de problemas. O segundo ocupante fez algumas reformas, mas não conseguiu deixar tudo pronto. Aí, você chega e encontra o lugar em caos e, sem nem querer ouvir explicações, coloca o atual ocupante para fora.

É o que os argentinos farão com Macri. E, como não sabem que foi Cristina Kirchner que entregou o imóvel destruído, estão dispostos a emprestá-lo para ela novamente. Por que tudo isso importa aos brasileiros? Para começar, pode nos custar dezenas, talvez centenas de milhares de empregos, por causa da redução de exportações para lá.

Bolsonaro se elegeu criticando o corrupto meio político brasileiro. Além de suas ações para mudar esse quadro, o que irá reelegê-lo ou não será a economia. Um bom desempenho exige a aprovação de várias medidas pelo Congresso, o que por sua vez, talvez, requeira um engajamento maior do presidente. Só que se ele continuar focado na agenda conservadora de costumes, os avanços liberalizantes podem ficar limitados, deixando o desempenho econômico a desejar. Assim, Bolsonaro e o Brasil correm riscos similares aos de Macri e da Argentina: um flerte com o abismo petista ou o de Ciro Gomes. Se acontecer, Bolsonaro irá para a cucuia e, junto com ele, os avanços estruturais. O Brasil e os brasileiros não merecem outra crise.

Bolsonaro não pode ser tímido como Macri na condução da agenda liberalizante. Sem contar que a volta do peronismo pode afetar nossas exportações

 

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Ricardo Amorim

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