Comportamento

A fina flor do high society

Carmen Mayrink Veiga (1929-2017), a mulher que colocou o Brasil no mapa do jet set internacional, sai de cena levando a aura de elegância que marcou os anos dourados

Crédito: Divulgação

Símbolo de riqueza, o Rolls Royce ficou com a família até que as dívidas se acumularam a exigiram que ele fosse vendido (Crédito: Divulgação)

Com a morte de Carmen Mayrink Veiga, aos 88 anos, no domingo 3, o Brasil deu adeus ao glamour e à elegância que na década de 1950 definiram o estilo de vida do high society. Enquanto Carmen viveu, estavam mantidos os símbolos de luxo que a elite brasileira usufruiu por décadas: viajar a bordo dos jatos particulares mais caros, passar férias em destinos então exclusivos como a Côte d’Azur, no sul da França, vestir roupas desenhadas pelos melhores estilistas, frequentar as festas mais badaladas e posar para pintores consagrados. A “pantera”, como definiu o colunista social Ibrahim Sued (1924-1995), teve todas essas maravilhas do grand monde ao seu alcance. Soube aproveitar aquilo que de melhor o dinheiro pode comprar, foi reverenciada por sua classe e ensinou a sociedade carioca a ser respeitada no jet set internacional. Carmen integrou a lista das mais bem vestidas do mundo segundo a revista Vanity Fair, foi retratada por Candido Portinari, Di Cavalcanti e Andy Warhol. Socialite em uma época em que o termo não havia sido banalizado, ela é a única brasileira citada na biografia oficial de Yves Saint Laurent e a primeira entrevistada pelo apresentador David Letterman. Segundo a família, Carmen morreu em decorrência de complicações da idade.

“Não sinto falta dessas coisas. Aproveitei bastante e não me arrependo de nada”

Suas declarações, às vezes, beiravam a indelicadeza. Com a chancela de especialista em alta costura em todos os continentes, detonou estilistas consagrados: “O Roberto Cavalli não tem uma única roupa que você possa usar para almoçar num lugar chique (…) Na coleção do Marc Jacobs, praticamente tudo é para você entrar numa escola de samba. Absurdamente feio e de mau gosto”. Os ataques eram compensados por sua alma generosa. “Ela mandava, todos os dias, uma quentinha para Guilherme Guimarães, o costureiro que era seu grande amigo”, diz a colunista Lu Lacerda. Acostumada a aparecer quase diariamente nas colunas sociais, construiu uma forte amizade também com Hildegard Angel, uma das seis únicas convidadas para o último aniversário de Carmen, em abril. “Ela preferiu receber os cumprimentos no seu quarto de paredes floridas em azul. Na hora do brinde, todos entraram e as flûtes de Baccarat branco e amarelo fizeram tim-tim. Foi aquela alegria. Depois, beijos, beijos, beijos.” A doença que a prendeu à cama, paraparesia espástica tropical, começou a provocar estragos em sua vida há muitos anos. Carmen foi perdendo os movimentos das pernas e pés aos poucos. Primeiro, usou bengala, depois cadeira de rodas e, por fim, estava imobilizada em uma cama.

Uma mulher de estilo
Retratos revelam o bom gosto e o prestígio de Carmen

Casaca 

O retrato de Carmen pintado por Portinari também precisou ser vendido, mas isso não significa que ela tenha morrido na pobreza. Carmen dizia que seria capaz de viver 400 anos com todo o conforto mesmo sem comprar nada

Carmen Terezinha Solbiati nasceu em Pirajuí, interior de São Paulo, em berço de ouro. Filha de um financista e cônsul honorário da Itália, em 1956 ela subiu ao altar com o empresário Tony Mayrink Veiga, cuja família era proprietária da mais influente emissora da era de ouro do rádio brasileiro. O casamento foi um dos grandes acontecimentos da década. A revista Vogue francesa chegou a apontar o casal como “o mais chique da América do Sul.” Tiveram dois filhos, Antenor e Antônia, cinco netos e dois bisnetos. Avó e bisavó amorosa, ela confidenciou à ISTOÉ, em 2011, sua estranheza com as novas gerações: “Outro dia, falei de casaca e meu neto, que mora há 14 anos em Londres, perguntou: “Vovó, o que é casaca?” Só faltei matar. Neto meu não saber o que é casaca!”

As últimas décadas de Carmen e Tony foram de décadence avec élégance. As dívidas foram se acumulando e eles tiveram que se desfazer de joias, carros, fazendas e obras de arte como o retrato dela pintado por Portinari. Na época, declarou: “Não sinto falta dessas coisas. Aproveitei bastante e não me arrependo de nada.” Eles conseguiram manter o apartamento em que moravam, na Avenida Rui Barbosa, no Flamengo, endereço de ricos no passado. Tony morreu no ano passado. No imenso imóvel ainda há vários símbolos da nobreza. Foi lá que Carmen viveu, em paz e com conforto, até o fim de seus dias.